terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Do desgaste ao renascimento


Ontem fui ao ortopedista.

Dois anos depois da minha cirurgia de coluna — aquela que aliviou a dor que descia pela perna — recebo um novo recado da vida: discopatia degenerativa. Aquele nome difícil que o médico disse com voz calma, explicando que é um processo de desgaste dos discos intervertebrais, que acontece com o tempo quando eles perdem elasticidade e amortecimento. Não foi uma sentença, só uma constatação: o disco pode continuar desgastando — ou não — e isso é parte do funcionamento da coluna ao longo da vida. 

Ele explicou como quem explica o clima: “Isso é comum, não é uma doença mágica, é desgaste natural.” E eu entendi. Porque a vida também desgasta — mas também nos fortalece.

Eu sou a prova disso.

Durante esses dois anos eu subi e desci escadas, cuidei de dois filhos pequenos que precisam do meu colo, do meu abraço e da minha disposição para correr, pular, brincar de pega-pega até cansar os ossos. Eu mudei hábitos: eliminei peso, perdi 17kg, reformei minha alimentação e incorporei atividade física regular. Eu encontrei tempo para cuidar de mim — não por vaidade, mas por amor.

Cuidar do corpo virou prioridade porque eu descobri que minha coluna não é um apêndice descartável, é a base da vida em movimento. E é ali, no meio dessa rotina acelerada de maternidade, trabalho, estudos e expectativas, que a gente aprende que a força não é algo que simplesmente nasce com você — ela se constrói.

Engraçado pensar que a mesma coluna que um dia chorou de dor agora me sustenta enquanto eu levanto pesos, escrevo textos, corro atrás dos meus filhos e abraço cada novo dia com intenção. Foi preciso aceitar que alguns discos podem sofrer desgaste, mas meu propósito continua firme — e eu continuo firme com ele.

Ser mãe é encomendar uma rotina que ninguém ensina: é fazer questão de estar ali quando eles chamam “mamãe, vem brincar!”, mesmo depois de um dia cansativo. É rir nas brincadeiras de carrinho, lego, corrida e esconde-esconde. É continuar mesmo quando a auto cobrança bate porta adentro — porque amar é insistir no cuidado diário.

Ao sair do consultório, eu não sai abalada. Saí consciente.

Consciente de que saúde é construção. Que bem-estar é escolha.

Que estar presente para quem depende de mim exige esforço — mas é um esforço que vale, sempre.

E então penso: se o meu corpo sabe envelhecer com dignidade, se meus hábitos hoje me guardam, se minha coluna não me define — então o que define é o que eu faço com tudo isso:

eu continuo. Eu cuido. Eu caminho.

Porque superar não é ignorar a condição.

É ajustar passos, fortalecer músculos e escolher viver bem.

E se antes a doença era um obstáculo, hoje ela é só parte da paisagem que me retrata como alguém que sabe cuidar, sabe amar, sabe superar.

E quiçá esse seja o melhor jeito de viver: com firmeza, com gentileza, com gratidão — mesmo quando o caminho pede mais de nós.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O sol é para todos

 


Há dias em que acordo com uma inquietação que não cabe no café.

Uma sensação de que merecíamos mais.

Mais respeito. Mais justiça. Mais humanidade.

Às vezes teimamos em querer mais da vida como quem pede sobremesa depois de um prato mal servido. E não é ganância. É sede de dignidade. É olhar para a desigualdade que escorre pelas ruas, para a injustiça que veste terno e fala bonito, para o desrespeito às leis por aqueles que as escrevem — e pensar: não era para ser assim.

Já passou pela sua cabeça a vontade de estar em um lugar melhor?

Um país que valorize as pessoas antes dos cargos?

Onde política não seja palco de vaidades, mas instrumento de cuidado?

Política para quem, afinal? Para manter privilégios ou para proteger vidas?

A palavra “merecer” é perigosa.

Porque quando a gente começa a pensar que merece mais, começa também a enxergar o quanto tem sido pouco.

Mas, curiosamente, foi meu filho quem me trouxe de volta à terra firme.

Essa noite, sem contexto, sem pedido, sem intenção escondida, ele me olhou e disse algo bonito. Um elogio gratuito. Não queria brinquedo. Não queria colo extra. Não queria negociar horário. Apenas disse.

E eu fiquei ali, desmontada.

A sabedoria das crianças é quase ofensiva de tão simples.

Elas não elogiam por interesse. Não medem palavras por cálculo político. Não distribuem carinho conforme vantagem. Elas dizem porque sentem.

E ali, naquele quarto, longe das discussões sobre país, justiça e futuro, eu entendi algo fundamental: o sol é para todos.

O sol não escolhe partido.

Não distingue classe.

Não verifica currículo.

Ele nasce e ilumina igualmente o palácio e a periferia.

Talvez o problema não seja o sol.

Talvez seja o que fazemos com a luz.

Queremos um país melhor — mas começamos como?

Queremos menos desigualdade — mas tratamos quem está ao nosso lado com dignidade?

Queremos líderes humanos — mas exercemos humanidade dentro de casa?

Meu filho, com sua inocência desarmada, me lembrou que a mudança começa no gesto gratuito. No elogio que não espera retorno. No amor que não exige aplauso.

Amor é político, sim.

Mas não no sentido partidário.

É político porque transforma relações.

É político porque redistribui poder.

É político porque escolhe cuidar ao invés de competir.

Talvez mereçamos mais.

Mas talvez também precisemos ser mais.

Mais gentis.

Mais firmes.

Mais conscientes.

Queremos duas melhores versões de país?

Então precisamos duas melhores versões de nós mesmos.

E, no meio de tanta revolta legítima, de tanto cansaço coletivo, eu me agarro a essa verdade pequena e enorme ao mesmo tempo:

se uma criança consegue elogiar sem interesse, amar sem cálculo e confiar sem desconfiança, ainda há esperança.

O sol é para todos.

Mas a humanidade… essa a gente precisa escolher todos os dias.