Ele não pediu demissão. Não fez discurso. Não avisou que estava indo embora.
O botão simplesmente quebrou.
Confesso que, no primeiro momento, pensei no transtorno. Afinal, como eu iria acompanhar meus passos, meus batimentos, meu sono, meus exercícios e todas aquelas estatísticas que, aparentemente, definem se estou vivendo direito?
Mas bastaram alguns dias sem ele no meu braço para perceber uma coisa curiosa.
Eu estava mais leve.
É engraçado como a tecnologia chega para facilitar a vida e, sem percebermos, começa a administrar cada minuto dela. O relógio vibrava para levantar, vibrava para beber água, vibrava porque eu estava sentada havia muito tempo, vibrava quando chegava uma mensagem, vibrava quando alguém ligava, vibrava quando eu alcançava uma meta e, às vezes, vibrava para me lembrar que eu ainda não tinha alcançado outra.
Era uma agenda ambulante presa ao meu pulso.
E eu, que já vivo uma rotina intensa, cheia de responsabilidades, trabalho, família, projetos e sonhos, não precisava de mais alguém me dizendo o tempo inteiro o que fazer.
Descobri algo quase revolucionário: eu sei quando estou cansada.
Sei quando preciso caminhar.
Sei quando estou feliz.
E, principalmente, sei quando preciso descansar.
Não preciso de um gráfico para validar isso.
Percebi que comecei a olhar menos para números e mais para mim. Passei a caminhar porque queria sentir o vento, não porque faltavam 843 passos para fechar um círculo colorido. Bebi água porque senti sede, não porque uma notificação me mandou. Dormi pensando em descansar, não em melhorar uma pontuação de qualidade do sono.
Existe uma liberdade enorme em não transformar cada aspecto da vida em uma métrica.
Não estou dizendo que relógios inteligentes são ruins. Muito pelo contrário. Eles ajudam muita gente e têm utilidade real. Mas, para mim, naquele momento da vida, ele havia deixado de ser uma ferramenta. Tinha se tornado mais uma voz competindo pela minha atenção.
E silêncio também é tecnologia de ponta.
Hoje olho para aquele botão quebrado e sorrio.
Quem diria que um defeito seria, na verdade, um livramento?
Às vezes, Deus nos desacostuma daquilo que nem percebíamos estar nos aprisionando.
E talvez o verdadeiro inteligente nunca tenha sido o relógio.
Talvez seja aprender a ouvir o próprio tempo.