Tem situações que nos tiram do eixo.
E tem aquelas que fazem mais do que isso — nos arrancam completamente da nossa órbita.
Quem tem filho entende.
Existe um tipo de medo que nasce junto com a maternidade. Ele não grita o tempo todo, mas está ali, em estado de vigília. Qualquer sinal de alerta — uma dor, um exame, uma dúvida médica — e tudo se amplifica. O mundo lá fora, que já é cheio de riscos, parece ainda mais imprevisível quando atravessa quem a gente ama.
Ontem foi um desses dias.
Um dia em que a frustração não veio sozinha. Veio acompanhada de cansaço, de indignação, de uma sensação incômoda de vulnerabilidade. O plano de saúde falhou — e quando algo que deveria cuidar não cumpre seu papel, o impacto é maior do que parece. Não é só burocracia. É medo. É urgência. É o sentimento de estar desassistida em um momento em que não se pode falhar.
Eu reclamei. Fiz questão de ser ouvida.
Mas, curiosamente, não foi isso que mais ficou.
Hoje, o que permanece é uma percepção mais silenciosa — e mais forte: eu sou mais resistente do que às vezes consigo lembrar.
A rotina cansa.
Cansa ao ponto de apagar evidências de quem a gente é.
Entre dar conta de tudo, equilibrar responsabilidades e lidar com pequenas urgências diárias, existe um esquecimento sutil: o da própria força. Como se viver no automático fosse, aos poucos, apagando a consciência daquilo que já superamos.
E então vem um dia como ontem.
Um dia que desorganiza, tensiona, exige resposta.
E, no meio disso tudo, algo se revela: você continua.
Mesmo sem diagnóstico fechado.
Mesmo com incerteza.
Mesmo com medo.
Nael agora será acompanhado por um oftalmologista pediatra. Ainda não há respostas claras. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis — lidar com o “não saber”.
A maternidade tem disso.
Ela nos coloca diante de situações que não controlamos, mas nos exige ação mesmo assim. Não dá para esperar ter todas as respostas para começar a cuidar. A gente cuida no meio da dúvida.
E isso é exaustivo.
Existe uma romantização perigosa sobre ser mãe. Como se fosse apenas amor leve, intuitivo, bonito. Mas há também tensão, desgaste, preocupação constante. Há dias em que o coração aperta mais do que deveria.
E está tudo bem reconhecer isso.
Porque a força não está em não sentir.
Está em seguir apesar de sentir.
Hoje eu me sinto mais tranquila — não porque tudo está resolvido, mas porque estamos fazendo o que precisa ser feito. Existe um caminho. Existe movimento. Existe cuidado.
E, no fim, talvez seja isso que sustenta tudo:
não é a certeza, é a continuidade.
Um passo de cada vez.
Uma decisão de cada vez.
Um cuidado de cada vez.
Se a vida, às vezes, nos tira da órbita, também é verdade que aprendemos — com o tempo — a nos reorganizar no espaço.
Não como antes.
Mas mais conscientes da força que carregamos.
E isso, por si só, já muda tudo.