Estamos no final de setembro.
Nael está aprendendo uma coisa nova: enxergar o mundo de outro jeito.
Depois da cirurgia de catarata, vieram os óculos. Agora virá também o tampão, três horas por dia. E, a cada três meses, voltaremos ao médico para acompanhar sua visão, seu desenvolvimento, sua adaptação.
Para uma criança, tudo isso se traduz em perguntas.
Para uma mãe, também.
Hoje saímos de mais uma consulta. Mas a maior lição daquele dia não aconteceu dentro do consultório.
No prédio, encontramos uma jovem cega.
Ela estava sozinha.
Com o celular nas mãos, acompanhava atentamente um aplicativo de viagem porque aguardava um motociclista que estava trazendo uma pasta com documentos seus.
Em determinado momento, perguntou se poderíamos ajudá-la.
Primeiro, queria saber se a moto havia chegado.
Depois, precisava encontrar um segurança que pudesse acompanhá-la até a clínica.
E Nael observava tudo.
Como toda criança, não havia constrangimento em sua curiosidade. Havia perguntas.
— Por que ela não enxerga?
Depois reparou na bengala.
Rosa.
Porque, aparentemente, até uma bengala pode precisar ter personalidade.
Então vieram outras:
— Por que ela está sozinha?
— Como ela vai subir?
— Como ela vai pegar o elevador?
— Como ela vai chegar ao médico?
Eu percebi que, enquanto perguntava sobre aquela moça, Nael tentava organizar dentro de si algo muito maior.
Ele está vivendo, talvez pela primeira vez, a consciência de que enxergar nem sempre é uma coisa simples.
Há poucas semanas, visão era apenas visão.
Agora existem cirurgia, óculos, tampão, consultas e acompanhamento.
Existe um olho que precisa ser estimulado.
Existe cuidado.
Existe tempo.
E existe também o vovô.
Nael logo fez a associação com o avô, que convive com a retinose pigmentar e está perdendo grande parte da visão.
Talvez, naquele pequeno espaço entre a recepção e o elevador, algumas peças tenham começado a se encaixar na cabeça dele.
A moça não enxergava.
O vovô quase não enxerga.
Ele precisou operar os olhos.
Mas aquela jovem estava ali.
Sozinha.
Com seu celular.
Chamando sua viagem.
Esperando seus documentos.
Indo ao médico.
Pedindo ajuda quando precisava.
Seguindo a vida.
E talvez essa tenha sido a parte mais bonita da lição.
Ela precisava de ajuda, sim.
Mas isso não significava que fosse incapaz.
Há uma diferença enorme entre as duas coisas — e nós, adultos, às vezes demoramos uma vida inteira para aprender.
Nael quis saber como ela conseguiria fazer tudo aquilo sem enxergar.
E eu fiquei pensando que talvez a pergunta pudesse ser outra:
quantas coisas uma pessoa aprende a fazer quando o mundo não funciona exatamente como ela gostaria?
Hoje eu poderia ter saído daquela consulta pensando apenas nas três horas de tampão por dia.
Nos óculos.
Na próxima avaliação daqui a três meses.
No olho que precisamos cuidar.
No futuro.
Coisas de mãe.
Mas saí pensando também naquela bengala rosa.
Naquela jovem seguindo para sua consulta.
No meu pai.
E no meu filho olhando tudo aquilo com a curiosidade de quem ainda não aprendeu a fingir que não vê.
Encontramos o segurança. Ela seguiria seu caminho e nós seguiríamos o nosso.
Antes de ir, ela se despediu:
— Tchau.
E então completou:
— Tchau, menininho.
Nael respondeu.
E aquilo ficou comigo.
Ela não tinha visto seus olhos curiosos. Não tinha visto seu rosto acompanhando cada movimento. Não tinha visto a expressão daquele menino tentando compreender como alguém que não enxergava poderia usar o celular, buscar documentos, pegar um elevador e chegar sozinha a uma consulta.
Mas ela sabia que ele estava ali.
E, de algum modo, também o tinha percebido.
Talvez eu esteja preocupada em ensinar Nael a cuidar dos olhos.
Mas hoje a vida tratou de ensinar a nós dois outra coisa:
enxergar é muito maior do que ver.
E aquele simples “tchau, menininho” talvez tenha sido a maneira mais bonita de nos lembrar disso.



