Ontem fui ao ortopedista.
Dois anos depois da minha cirurgia de coluna — aquela que aliviou a dor que descia pela perna — recebo um novo recado da vida: discopatia degenerativa. Aquele nome difícil que o médico disse com voz calma, explicando que é um processo de desgaste dos discos intervertebrais, que acontece com o tempo quando eles perdem elasticidade e amortecimento. Não foi uma sentença, só uma constatação: o disco pode continuar desgastando — ou não — e isso é parte do funcionamento da coluna ao longo da vida.
Ele explicou como quem explica o clima: “Isso é comum, não é uma doença mágica, é desgaste natural.” E eu entendi. Porque a vida também desgasta — mas também nos fortalece.
Eu sou a prova disso.
Durante esses dois anos eu subi e desci escadas, cuidei de dois filhos pequenos que precisam do meu colo, do meu abraço e da minha disposição para correr, pular, brincar de pega-pega até cansar os ossos. Eu mudei hábitos: eliminei peso, perdi 17kg, reformei minha alimentação e incorporei atividade física regular. Eu encontrei tempo para cuidar de mim — não por vaidade, mas por amor.
Cuidar do corpo virou prioridade porque eu descobri que minha coluna não é um apêndice descartável, é a base da vida em movimento. E é ali, no meio dessa rotina acelerada de maternidade, trabalho, estudos e expectativas, que a gente aprende que a força não é algo que simplesmente nasce com você — ela se constrói.
Engraçado pensar que a mesma coluna que um dia chorou de dor agora me sustenta enquanto eu levanto pesos, escrevo textos, corro atrás dos meus filhos e abraço cada novo dia com intenção. Foi preciso aceitar que alguns discos podem sofrer desgaste, mas meu propósito continua firme — e eu continuo firme com ele.
Ser mãe é encomendar uma rotina que ninguém ensina: é fazer questão de estar ali quando eles chamam “mamãe, vem brincar!”, mesmo depois de um dia cansativo. É rir nas brincadeiras de carrinho, lego, corrida e esconde-esconde. É continuar mesmo quando a auto cobrança bate porta adentro — porque amar é insistir no cuidado diário.
Ao sair do consultório, eu não sai abalada. Saí consciente.
Consciente de que saúde é construção. Que bem-estar é escolha.
Que estar presente para quem depende de mim exige esforço — mas é um esforço que vale, sempre.
E então penso: se o meu corpo sabe envelhecer com dignidade, se meus hábitos hoje me guardam, se minha coluna não me define — então o que define é o que eu faço com tudo isso:
eu continuo. Eu cuido. Eu caminho.
Porque superar não é ignorar a condição.
É ajustar passos, fortalecer músculos e escolher viver bem.
E se antes a doença era um obstáculo, hoje ela é só parte da paisagem que me retrata como alguém que sabe cuidar, sabe amar, sabe superar.
E quiçá esse seja o melhor jeito de viver: com firmeza, com gentileza, com gratidão — mesmo quando o caminho pede mais de nós.


