segunda-feira, 9 de março de 2026

O "dia da mulher"

Todo o meu respeito às pessoas que preferem não dizer “feliz Dia da Mulher”.

Há quem entenda que não se trata de comemoração, mas de memória, luta e denúncia de desigualdades que ainda atravessam a vida de tantas mulheres. Essa leitura é legítima.

Mas também confesso que, entre nós, mulheres, desejar um “feliz dia” pode ter outro significado. Não é ingenuidade. É reconhecimento. É afeto. É um gesto de quem sabe exatamente o que a outra enfrenta.

Porque, sejamos honestas: há algo profundamente incoerente quando o desejo de “feliz Dia da Mulher” vem de quem, no cotidiano, não pratica o mínimo de respeito às mulheres. Quando a mensagem é bonita, mas as atitudes continuam reproduzindo silenciamento, desvalorização ou desrespeito.

Talvez por isso muitas mulheres prefiram desejar umas às outras.

Não como exclusão de gêneros — mas como reconhecimento entre quem compartilha experiências semelhantes. Entre quem sabe o peso e a potência de ser mulher em uma sociedade que ainda nos exige provar, todos os dias, nosso valor.

O Dia da Mulher pode ser celebração, reflexão ou denúncia.

Mas, acima de tudo, precisa ser coerência.

Porque mais importante do que dizer “feliz Dia da Mulher” é viver todos os dias com respeito às mulheres.

terça-feira, 3 de março de 2026

Mulheres, tecnologia e coragem: não é sobre ocupar espaço, é sobre transformar

 Início de mais um ano letivo.

Mais um semestre na tecnologia da informação.

Mais uma oportunidade de atravessar territórios que, historicamente, não foram pensados para nós.

Ao me deparar com um mural que homenageia mulheres formadas no IMD, uma frase ecoou em mim:

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

E eu pensei: quantas vezes tentaram nos definir?

A mulher sensível demais.

A mulher emocional demais.

A mulher que “talvez não tenha perfil para exatas”.

A mulher que deveria escolher algo “mais compatível”.

A mulher que precisa provar duas vezes o que o homem prova uma.

A tecnologia ainda carrega desigualdades estruturais.

Os números mostram a baixa representatividade feminina em cursos de computação, engenharia e áreas técnicas. Mas o problema não é capacidade. Nunca foi.

O problema sempre foi acesso, incentivo e permanência.

Quantas meninas ouviram, ainda na infância, que “isso não é coisa de menina”?

Quantas desistiram antes mesmo de tentar?

Quantas continuam, mas silenciosamente duvidando se pertencem?

Eu estou em transição. Sou assistente social, mãe, empreendedora, estudante de TI. Estou reaprendendo linguagens, lógica, códigos e algoritmos. E não é fácil. Mas também não é impossível.

A questão nunca foi se somos capazes.

A questão é se estamos dispostas a enfrentar o desconforto.

A Inteligência Artificial, por exemplo, não é neutra. Ela carrega vieses, reproduz desigualdades, amplia invisibilidades quando não é construída com diversidade. E é justamente por isso que precisamos estar nesses espaços.

Precisamos de mulheres desenvolvendo sistemas.

Projetando soluções.

Pensando ética.

Questionando padrões.

Criando tecnologia que considere pessoas reais.

Não se trata apenas de ocupar cadeiras.

Trata-se de influenciar decisões.

A cada novo projeto que inicio, a cada código que tento entender, a cada erro que enfrento, eu escolho continuar. Não por vaidade. Mas por convicção.

Porque tecnologia é poder.

E mulheres precisam estar onde o poder é construído.

Também é preciso coragem para aprender. Coragem para errar publicamente. Coragem para não dominar tudo imediatamente. Coragem para não ser a melhor da sala, mas ainda assim permanecer.

E, acima de tudo, coragem para não se sujeitar.

Que nada nos defina.

Que nada nos limite.

Que nada nos silencie.

Que possamos inspirar meninas não apenas com discursos, mas com presença.

Que possamos dizer às mulheres que é possível recomeçar aos 30, aos 40, aos 50.

Que possamos transformar tecnologia em ferramenta de inclusão, e não de exclusão.

Este novo semestre não é apenas sobre disciplinas e avaliações.

É sobre identidade.

É sobre ocupar espaços com consciência.

É sobre fazer o melhor que posso com IA — com ética, com propósito e com humanidade.

E talvez seja isso o verdadeiro empoderamento:

não esperar permissão para existir onde sempre tivemos o direito de estar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Do desgaste ao renascimento


Ontem fui ao ortopedista.

Dois anos depois da minha cirurgia de coluna — aquela que aliviou a dor que descia pela perna — recebo um novo recado da vida: discopatia degenerativa. Aquele nome difícil que o médico disse com voz calma, explicando que é um processo de desgaste dos discos intervertebrais, que acontece com o tempo quando eles perdem elasticidade e amortecimento. Não foi uma sentença, só uma constatação: o disco pode continuar desgastando — ou não — e isso é parte do funcionamento da coluna ao longo da vida. 

Ele explicou como quem explica o clima: “Isso é comum, não é uma doença mágica, é desgaste natural.” E eu entendi. Porque a vida também desgasta — mas também nos fortalece.

Eu sou a prova disso.

Durante esses dois anos eu subi e desci escadas, cuidei de dois filhos pequenos que precisam do meu colo, do meu abraço e da minha disposição para correr, pular, brincar de pega-pega até cansar os ossos. Eu mudei hábitos: eliminei peso, perdi 17kg, reformei minha alimentação e incorporei atividade física regular. Eu encontrei tempo para cuidar de mim — não por vaidade, mas por amor.

Cuidar do corpo virou prioridade porque eu descobri que minha coluna não é um apêndice descartável, é a base da vida em movimento. E é ali, no meio dessa rotina acelerada de maternidade, trabalho, estudos e expectativas, que a gente aprende que a força não é algo que simplesmente nasce com você — ela se constrói.

Engraçado pensar que a mesma coluna que um dia chorou de dor agora me sustenta enquanto eu levanto pesos, escrevo textos, corro atrás dos meus filhos e abraço cada novo dia com intenção. Foi preciso aceitar que alguns discos podem sofrer desgaste, mas meu propósito continua firme — e eu continuo firme com ele.

Ser mãe é encomendar uma rotina que ninguém ensina: é fazer questão de estar ali quando eles chamam “mamãe, vem brincar!”, mesmo depois de um dia cansativo. É rir nas brincadeiras de carrinho, lego, corrida e esconde-esconde. É continuar mesmo quando a auto cobrança bate porta adentro — porque amar é insistir no cuidado diário.

Ao sair do consultório, eu não sai abalada. Saí consciente.

Consciente de que saúde é construção. Que bem-estar é escolha.

Que estar presente para quem depende de mim exige esforço — mas é um esforço que vale, sempre.

E então penso: se o meu corpo sabe envelhecer com dignidade, se meus hábitos hoje me guardam, se minha coluna não me define — então o que define é o que eu faço com tudo isso:

eu continuo. Eu cuido. Eu caminho.

Porque superar não é ignorar a condição.

É ajustar passos, fortalecer músculos e escolher viver bem.

E se antes a doença era um obstáculo, hoje ela é só parte da paisagem que me retrata como alguém que sabe cuidar, sabe amar, sabe superar.

E quiçá esse seja o melhor jeito de viver: com firmeza, com gentileza, com gratidão — mesmo quando o caminho pede mais de nós.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O sol é para todos

 


Há dias em que acordo com uma inquietação que não cabe no café.

Uma sensação de que merecíamos mais.

Mais respeito. Mais justiça. Mais humanidade.

Às vezes teimamos em querer mais da vida como quem pede sobremesa depois de um prato mal servido. E não é ganância. É sede de dignidade. É olhar para a desigualdade que escorre pelas ruas, para a injustiça que veste terno e fala bonito, para o desrespeito às leis por aqueles que as escrevem — e pensar: não era para ser assim.

Já passou pela sua cabeça a vontade de estar em um lugar melhor?

Um país que valorize as pessoas antes dos cargos?

Onde política não seja palco de vaidades, mas instrumento de cuidado?

Política para quem, afinal? Para manter privilégios ou para proteger vidas?

A palavra “merecer” é perigosa.

Porque quando a gente começa a pensar que merece mais, começa também a enxergar o quanto tem sido pouco.

Mas, curiosamente, foi meu filho quem me trouxe de volta à terra firme.

Essa noite, sem contexto, sem pedido, sem intenção escondida, ele me olhou e disse algo bonito. Um elogio gratuito. Não queria brinquedo. Não queria colo extra. Não queria negociar horário. Apenas disse.

E eu fiquei ali, desmontada.

A sabedoria das crianças é quase ofensiva de tão simples.

Elas não elogiam por interesse. Não medem palavras por cálculo político. Não distribuem carinho conforme vantagem. Elas dizem porque sentem.

E ali, naquele quarto, longe das discussões sobre país, justiça e futuro, eu entendi algo fundamental: o sol é para todos.

O sol não escolhe partido.

Não distingue classe.

Não verifica currículo.

Ele nasce e ilumina igualmente o palácio e a periferia.

Talvez o problema não seja o sol.

Talvez seja o que fazemos com a luz.

Queremos um país melhor — mas começamos como?

Queremos menos desigualdade — mas tratamos quem está ao nosso lado com dignidade?

Queremos líderes humanos — mas exercemos humanidade dentro de casa?

Meu filho, com sua inocência desarmada, me lembrou que a mudança começa no gesto gratuito. No elogio que não espera retorno. No amor que não exige aplauso.

Amor é político, sim.

Mas não no sentido partidário.

É político porque transforma relações.

É político porque redistribui poder.

É político porque escolhe cuidar ao invés de competir.

Talvez mereçamos mais.

Mas talvez também precisemos ser mais.

Mais gentis.

Mais firmes.

Mais conscientes.

Queremos duas melhores versões de país?

Então precisamos duas melhores versões de nós mesmos.

E, no meio de tanta revolta legítima, de tanto cansaço coletivo, eu me agarro a essa verdade pequena e enorme ao mesmo tempo:

se uma criança consegue elogiar sem interesse, amar sem cálculo e confiar sem desconfiança, ainda há esperança.

O sol é para todos.

Mas a humanidade… essa a gente precisa escolher todos os dias.

sábado, 13 de dezembro de 2025

O saldo do final do ano

Todo fim de ano pede silêncio antes da lista.

Antes do check list.

Antes das promessas que a gente faz olhando para frente, mas que só fazem sentido quando olhamos para trás.

O saldo não é só o que foi riscado como concluído.

É também o que ficou pela metade.

O que doeu.

O que mudou a rota.

Sou grata pelo que se foi — porque precisou ir.

E pelo que ficou — porque resistiu.

Pelas conquistas que vieram com festa e pelas que chegaram quietinhas, quase tímidas, mas profundas.

Pelos dias alegres, pelos dias cansados, pelos dias em que só sobrevivi. Todos contam.

Houve mudança de hábitos.

De prato.

De ritmo.

De escolhas.

Qualidade de vida não chegou como milagre, chegou como decisão repetida. Dia após dia.

Agora, sentada no salão, unhas sendo feitas, cabelo sendo renovado, percebo: isso também é ritual.

Cuidar do que sustenta tudo.

Pausa merecida.

Espelho que devolve não só a imagem, mas a história inteira do ano.


Não foi perfeito.

Foi vivido.

E isso já é muito.

Que o próximo ano venha com menos cobrança e mais presença.

Menos promessa vazia e mais gratidão real.

Porque o verdadeiro saldo… é estar aqui. Inteira.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A era pós-pré-treino: Eu, renovada e monitorada

Aconteceu.

A revolução.

O renascimento.

A Era Pós-Pré-Treino™ deu tão certo que agora eu evoluí de fase e desbloqueei o item mais poderoso do jogo: meu relógio inteligente Amazfit — um pequeno oráculo preso ao meu pulso, pronto para narrar minha vida como se fosse um documentário da BBC.


De repente, eu, mãe de dois, estudante, trabalhadora, dona de casa, empreendedora e sobrevivente emocional, virei também uma pessoa que faz 10 mil passos por dia… ou finge que faz (porque o relógio vibra celebrando até quando eu balanço o braço para chamar as crianças).


O Amazfit tem uma função de estresse.

A função detecta o estresse.

A função mede o estresse.

E o estresse sou eu.


O relógio olha para mim como quem diz:

“Querida… respira. Eu tô vendo tudo daqui.”


E eu respondo mentalmente:

“Eu sei, Amazfit, eu sei. Mas você já tentou convencer uma criança de 3 anos de que meia não é opcional?”


Aí tem a função de ciclo menstrual.

O relógio sabe antes de mim.

Ele literalmente me avisa que estou sensível… e, veja só, eu realmente estou chorando porque acabou o café.

Ele olha meus hormônios e fala:

“Se prepara, amor. Hoje não é dia de discutir relação, escolher roupa ou fazer contas.”


E os passos?

Ele marca tudo.

Marca quando eu corro atrás do filho de 5 anos para ele não sair sem escovar os dentes.

Marca quando eu subo escada com mochila, lancheiras, cadernos, garrafinhas e dignidade na mão.

Marca até quando eu tenho que ir na cozinha buscar algo que eu mesma esqueci.


A função do sono…

Ah, essa é uma obra-prima da comédia.

Ela me diz:

“Seu sono foi leve.”

E eu fico pensando:

“Leve? Leve é pouco, meu anjo. Leve é peso de algodão. O que eu tive foi um cochilo interrompido 14 vezes por ‘mamãe, cadê meu dinossauro azul?’, ‘mamãe, posso beber água?’, ‘mamãe, você sabe que o Japão existe?’”


Mas o ponto alto dessa história toda é outro.

Eu M-U-D-E-I.


Zero álcool.

Alimentação decente.

Atividade física regular.

Suplementação.

Sono (quando dá).

E agora o relógio me ajudando a não fugir de mim mesma.


Eu comecei a ter tempo.

E fiz escolhas com esse tempo, escolhas que sempre deixei para depois porque a gente, mulher, mãe, estudante, trabalhadora, vira uma máquina de cuidar — e esquece da própria engrenagem.


Hoje, sou quase uma versão Marvel de mim mesma.

Uma super-heroína com tênis confortável, pré-treino na veia e um relógio que me julga carinhosamente.


E a sensação?

É de vitória.

De respiro.

De existir.

De não estar apenas vivendo por inércia.


Porque quando eu paro, no fim do dia, e o relógio vibra dizendo “meta alcançada”, sinto vontade de responder:


“Pois é, Amazfit…

A vida também.”