domingo, 9 de agosto de 2026

As canções de domingo


Meu pai nunca foi exatamente um homem de grandes declarações.

Não me lembro de discursos emocionados, conversas intermináveis sobre sentimentos ou dessas cenas bonitas de filme em que pai e filha resolvem a vida inteira sentados na varanda.

Também, convenhamos, eu provavelmente ficaria preocupada se ele começasse agora.

— Pai, está tudo bem? O senhor quer me contar alguma coisa?

Mas havia Roberto Carlos aos domingos.

E hoje eu desconfio que aquilo queria dizer alguma coisa.

Talvez algumas pessoas tenham aprendido a dizer “eu te amo” com palavras. Outras colocavam uma música para tocar, aumentavam um pouquinho o volume e continuavam fazendo o que estavam fazendo como se não fosse absolutamente nada.

Meu pai é dessa geração.

A geração dos homens que demonstravam amor verificando se tinha comida em casa, se estava tudo certo, se ninguém estava fazendo alguma grande besteira — e, principalmente, ensinando muito bem a diferença entre o certo e o errado.

Essa parte, aliás, ele ensinou com bastante eficiência.

Meu pai sempre teve uma espécie de bússola moral muito própria.

O certo era certo.

O errado era errado.

E recurso da decisão?

Não me lembro de haver essa possibilidade.

Hoje acho graça.

Porque o tempo tem essa capacidade maravilhosa de mudar o lugar de onde observamos as coisas.

Quando somos crianças, enxergamos apenas o pai.

Depois crescemos e começamos a enxergar também o homem.

E eu passei a compreender melhor de onde ele veio.

Meu pai pertence a uma geração em que demonstrar amor não era necessariamente abraçar, conversar ou dizer.

Era fazer.

Era trabalhar.

Era providenciar.

Era cuidar para que não faltasse.

Era colocar Roberto Carlos para cantar no domingo e deixar que ele dissesse algumas coisas que talvez fossem difíceis demais para um homem daquela geração colocar em palavras.

E quer saber?

Talvez tenha funcionado.

Porque hoje nós cuidamos um do outro.

Do nosso jeito.

Não viramos subitamente aquelas pessoas que terminam toda ligação dizendo “eu te amo” quinze vezes. Seria uma mudança brusca demais para esta família e não queremos assustar ninguém.

Mas existe cuidado.

Existe presença.

Existe uma intimidade que talvez não precise ser explicada.

E existe algo muito bonito em chegar à vida adulta e perceber que nossos pais também tiveram uma história antes de nós.

Eles também aprenderam a amar do jeito que alguém lhes ensinou.

E fizeram o que puderam com aquilo que receberam.

Hoje eu consigo reconhecer muitas coisas que, quando menina, não sabia nomear.

Talvez aquele prato na mesa dissesse alguma coisa.

Talvez aquela preocupação disfarçada dissesse alguma coisa.

Talvez cada ensinamento sobre o certo e o errado dissesse alguma coisa.

E talvez Roberto Carlos, cantando pela casa num domingo qualquer, estivesse dizendo por ele:

“Eu estou aqui.”

Hoje também estou, pai.

E acho bonito saber que, depois de tantos anos, continuamos cuidando um do outro — cada um à sua maneira.

Sem precisar de grandes discursos.

Embora, ironicamente, eu tenha acabado de escrever um.

Feliz Dia dos Pais, pai.

E pode colocar Roberto Carlos.

Agora eu entendo.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O dia em que meu relógio inteligente me deu um presente

Ele não pediu demissão. Não fez discurso. Não avisou que estava indo embora.

O botão simplesmente quebrou.

Confesso que, no primeiro momento, pensei no transtorno. Afinal, como eu iria acompanhar meus passos, meus batimentos, meu sono, meus exercícios e todas aquelas estatísticas que, aparentemente, definem se estou vivendo direito?

Mas bastaram alguns dias sem ele no meu braço para perceber uma coisa curiosa.


Eu estava mais leve.


É engraçado como a tecnologia chega para facilitar a vida e, sem percebermos, começa a administrar cada minuto dela. O relógio vibrava para levantar, vibrava para beber água, vibrava porque eu estava sentada havia muito tempo, vibrava quando chegava uma mensagem, vibrava quando alguém ligava, vibrava quando eu alcançava uma meta e, às vezes, vibrava para me lembrar que eu ainda não tinha alcançado outra.

Era uma agenda ambulante presa ao meu pulso.

E eu, que já vivo uma rotina intensa, cheia de responsabilidades, trabalho, família, projetos e sonhos, não precisava de mais alguém me dizendo o tempo inteiro o que fazer.


Descobri algo quase revolucionário: eu sei quando estou cansada.

Sei quando preciso caminhar.

Sei quando estou feliz.

E, principalmente, sei quando preciso descansar.


Não preciso de um gráfico para validar isso.


Percebi que comecei a olhar menos para números e mais para mim. Passei a caminhar porque queria sentir o vento, não porque faltavam 843 passos para fechar um círculo colorido. Bebi água porque senti sede, não porque uma notificação me mandou. Dormi pensando em descansar, não em melhorar uma pontuação de qualidade do sono.

Existe uma liberdade enorme em não transformar cada aspecto da vida em uma métrica.

Não estou dizendo que relógios inteligentes são ruins. Muito pelo contrário. Eles ajudam muita gente e têm utilidade real. Mas, para mim, naquele momento da vida, ele havia deixado de ser uma ferramenta. Tinha se tornado mais uma voz competindo pela minha atenção.


E silêncio também é tecnologia de ponta.

Hoje olho para aquele botão quebrado e sorrio.

Quem diria que um defeito seria, na verdade, um livramento?


Às vezes, Deus nos desacostuma daquilo que nem percebíamos estar nos aprisionando.


E talvez o verdadeiro inteligente nunca tenha sido o relógio.

Talvez seja aprender a ouvir o próprio tempo.

terça-feira, 28 de julho de 2026

A vida além dos planos

 Sabe, os seus planos vão mudar.

E talvez mudem quando você achar que tudo já estava decidido. Talvez mudem sem aviso, numa manhã qualquer, depois de uma ligação, de uma perda, de um reencontro ou de uma porta que insistiu em permanecer fechada.

No começo, dói.


Porque a gente se apega ao caminho que desenhou. Faz planos, estabelece metas, imagina prazos. Acredita que crescer é seguir exatamente o roteiro que escreveu.


Mas a vida raramente respeita os nossos rascunhos.


Ela reescreve capítulos inteiros sem pedir licença.


E, por mais difícil que seja admitir, nem toda mudança vem para tirar. Algumas chegam para devolver partes de nós que estavam esquecidas.


Existe uma maturidade silenciosa em entender que nem sempre o melhor é aquilo que queríamos. Às vezes, o bem maior exige que a gente recue. Que espere. Que aceite. Que cuide. Que caminhe ao lado de alguém, quando tudo o que desejávamos era correr sozinhos.


Porque nem todo crescimento acontece na independência.


Há fases em que a maior força está justamente em reconhecer que precisamos do outro. De uma mão estendida. De um abraço. De uma palavra que nos devolve o fôlego. De quem acredita em nós quando já não conseguimos acreditar.


E isso não diminui ninguém.


Pelo contrário.

Só cresce de verdade quem entende que a vida não é construída apenas com conquistas extraordinárias, mas também com vitórias invisíveis.

Aquelas que ninguém aplaude.

Levantar mesmo cansado.

Continuar quando a vontade era desistir.

Escolher a paz em vez do orgulho.

Recomeçar sem fazer barulho.

Essas vitórias não aparecem nas fotografias. Não recebem medalhas. Mas são elas que sustentam tudo o que, um dia, será visto.

Sonhe.

Tenha metas.

Planeje.

Mas não transforme os seus planos em prisão.

Permita que Deus, a vida e o tempo também escrevam a história.

Porque, às vezes, o destino que nos espera é muito maior do que aquele que insistimos em controlar.

No fim, não será o quanto você conseguiu manter tudo exatamente como imaginou que definirá a sua caminhada.

Será a coragem de continuar caminhando quando tudo mudou.

E descobrir, olhando para trás, que a mudança que tanto assustava foi justamente a que fez você se tornar quem sempre esteve destinado a ser.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

Se existe uma coisa que aprendi convivendo com meu próprio corpo é que os hormônios são roteiristas criativos.

Muito criativos.

Tem dias em que você acorda se sentindo uma verdadeira deusa. O cabelo coopera. A pele brilha. O olhar parece mais vivo. A autoestima aparece sem esforço. Você passa pelo espelho e pensa:

"Olha só... quem é essa mulher?"

É quase uma versão cinematográfica de nós mesmas.

Mas os hormônios gostam de emoção.

Porque poucos dias depois, sem qualquer aviso prévio, surge ela.

A espinha.

Não uma espinha discreta e educada.

Uma espinha estratégica.

Daquelas que escolhem exatamente o centro do rosto para se manifestar.

E ela aparece acompanhada de amigas.

Porque aparentemente nenhuma delas gosta de ficar sozinha.

É curioso como o mesmo organismo capaz de nos dar aquela pele iluminada também consegue produzir uma pequena cadeia de montanhas na região do queixo em questão de horas.

E nós observamos tudo isso tentando manter a compostura.

A retenção de líquido chega.

As roupas mudam de comportamento.

O humor fica mais sensível.

A ansiedade faz visitas inesperadas.

As espinhas aparecem.

E ainda assim esperamos de nós mesmas a mesma performance, a mesma produtividade e a mesma disposição de todos os outros dias.

Como se nada estivesse acontecendo.

Mas está.

Existe uma dança hormonal acontecendo o tempo inteiro.

Uma coreografia silenciosa que influencia nossa energia, nosso sono, nossa fome, nossa pele, nosso humor e até a forma como enxergamos a nós mesmas.

O mais injusto é que, às vezes, olhamos uma foto antiga e pensamos:

"Nossa, eu estava tão bonita ali."

Quando, naquele dia da foto, provavelmente estávamos reclamando da barriga, da espinha, do cabelo ou de qualquer outro detalhe que ninguém além de nós percebia.

Porque mulheres têm esse talento estranho de enxergar defeitos com uma precisão científica.

Mas talvez a beleza esteja justamente nisso.

Na mulher que floresce.

Na mulher que descansa.

Na mulher que se sente linda.

Na mulher que acorda inchada.

Na mulher da pele perfeita.

Na mulher que está lutando contra uma invasão hormonal no queixo.

Porque nenhuma dessas versões é menos mulher.

Nenhuma delas é menos bonita.

São apenas capítulos diferentes da mesma história.

Uma história escrita por ciclos.

E talvez a maior maturidade seja entender que nem toda fase foi feita para florescer.

Algumas foram feitas para recolher.

Outras para recomeçar.

E todas elas, até aquelas acompanhadas de espinhas inesperadas e uma vontade irracional de comer chocolate às dez da manhã, fazem parte da beleza extraordinária de ser mulher.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O peso que não aparece


Enquanto você escuta alguém, sua cabeça voa?

A minha costuma voar.

Pensa na lista do mercado, no prazo que está acabando, na roupa para dobrar, na mensagem que ainda preciso responder. O corpo está presente, mas a mente, muitas vezes, atravessa continentes.

Mas hoje não.

Hoje eu estive inteira.

Sentei diante dela e, por algumas horas, o mundo parou. Não existia celular. Não existia relógio. Não existiam tarefas urgentes. Existia apenas uma mulher tentando sobreviver ao peso que carrega.

E como ela carrega.

São muitos problemas. Mas quem não tem os seus?

A diferença é que algumas pessoas travam batalhas que ninguém vê.

Hoje eu segurei sua mão. Segurei seu choro. E, em silêncio, desejei poder fazer mais. Desejei arrancar dela um pouco da dor, dividir o peso da mochila invisível que ela leva todos os dias.

Porque viver já exige coragem.

Viver enquanto a mente dispara mil pensamentos ao mesmo tempo exige ainda mais.

Para quem convive com a bipolaridade, com a ansiedade, com medos que se multiplicam dentro da própria cabeça, cada dia vencido é uma conquista que quase ninguém aplaude.

É como um código executando dezenas de processos simultaneamente. Informações chegando sem parar. Emoções disputando espaço. Lembranças, preocupações, inseguranças e responsabilidades rodando juntas, sem botão de pausa.

E, mesmo assim, ela continua.

Mesmo quando o mundo parece desabar.

Mesmo quando tudo dentro dela grita para desistir.

Ela continua.

Foi olhando para ela que percebi algo importante: não são os laudos que definem uma pessoa. Não são os diagnósticos. Não são as siglas, os relatórios ou os códigos escritos em um papel.

O que define alguém é a sua capacidade de continuar caminhando quando tudo parece pesado demais.

E ela caminha.

Talvez mais devagar em alguns dias.

Talvez com lágrimas nos olhos em outros.

Mas caminha.

Quando saí da casa dela, percebi que o relógio não seria capaz de medir aquele encontro. O tempo que passei ouvindo nunca será suficiente.

Porque algumas pessoas precisam mais do que remédios.

Precisam de presença.

Precisam de escuta.

Precisam de alguém que as lembre, de vez em quando, daquilo que elas esquecem quando a tempestade chega:

Você é forte.

Muito mais forte do que imagina.

E, enquanto houver um novo amanhecer, ainda existe uma página em branco esperando pela sua história.


domingo, 7 de junho de 2026

Entre nós, os silêncios e o besouro

Há filmes que entretêm.
Há filmes que emocionam.
E há aqueles que deixam uma pedra no sapato.
Entre Nós me deixou uma pedra.
Talvez porque eu o tenha assistido da forma mais real possível: entre interrupções, pedidos de água, discussões infantis sobre quem pegou qual brinquedo e uma verdadeira coreografia com o controle remoto para escapar dos inevitáveis palavrões.
Assistir a um filme depois da maternidade é quase um ato de resistência.
Você nunca está totalmente ali.
E, ainda assim, algumas histórias encontram um jeito de atravessar o caos.
Entre Nós atravessou.
Mesmo com o áudio parecendo conspirar contra a compreensão humana. Mesmo com uma fotografia tão escura que, em certos momentos, eu não sabia se estava vendo um personagem ou a manifestação física de uma crise existencial.
Porque a história não depende apenas do que vemos.
Ela depende do que reconhecemos.
E eu reconheci muita coisa.
O filme fala sobre amizade.
Mas não sobre aquela amizade bonita das fotografias antigas, em que todos parecem felizes e promissores.
Fala da amizade que envelhece.
Da amizade que carrega rachaduras.
Da amizade que sobrevive ao tempo, mas não necessariamente sai ilesa dele.
Um grupo de amigos se reúne. Sonhos, expectativas e frustrações dividem espaço na mesma mesa. E aos poucos percebemos que ninguém saiu exatamente como imaginava quando era jovem.
Quem de nós saiu?
Talvez seja isso que incomode.
A juventude nos convence de que o futuro será grandioso.
A vida passa anos explicando que não.
E então surge o grande golpe da história.
O roubo.
Não apenas de um texto.
Não apenas de uma autoria.
Mas de algo muito maior.
O roubo de uma versão da realidade.
Porque quando alguém se apropria daquilo que você criou, não leva apenas uma ideia.
Leva horas da sua vida.
Leva suas inseguranças.
Leva seus sonhos.
Leva pedaços de quem você era quando escreveu aquilo.
Existem furtos que não deixam portas arrombadas.
Mas deixam pessoas quebradas.
E o mais cruel é perceber que nem sempre quem nos rouba é um estranho.
Às vezes está sentado ao nosso lado.
Às vezes conhece nossos medos.
Às vezes chamamos de amigo.
Foi aí que o filme me fisgou.
Porque a história deixa uma pergunta desconfortável:
Quanto da nossa vida entregamos às pessoas acreditando que elas cuidarão daquilo que somos?
E então aparece o besouro.
De novo.
E de novo.
E mais uma vez.
Pequeno.
Insistente.
Quase irritante.
Enquanto os personagens se afogam em culpas, ressentimentos e versões conflitantes dos fatos, o besouro segue seu caminho indiferente.
Como a vida.
Porque a vida tem essa crueldade silenciosa.
Ela não para para que resolvamos nossas pendências.
Não espera que peçamos desculpas.
Não aguarda reconciliações.
Ela continua.
Dia após dia.
Enquanto carregamos histórias mal resolvidas.
No fim do filme, fiquei pensando menos sobre quem roubou o quê.
E mais sobre o que o tempo roubou de todos eles.
A juventude.
As certezas.
A inocência.
A crença de que amizades verdadeiras são indestrutíveis.
Talvez o verdadeiro ladrão de Entre Nós não seja nenhum personagem.
Talvez seja o próprio tempo.
E talvez o besouro estivesse ali justamente para nos lembrar disso.
Pequeno.
Silencioso.
Persistente.
Como as perdas que acumulamos sem perceber.
Como as pessoas que amamos.
Como as histórias que nunca conseguimos terminar de contar.