terça-feira, 18 de agosto de 2026

Por que não falamos do burnout da mulher moderna?


Talvez porque tenhamos aprendido a chamar de força aquilo que, muitas vezes, é exaustão.

A mulher moderna trabalha.

Mas antes de trabalhar, talvez tenha acordado alguém. Preparado alguma coisa. Conferido uma mochila. Lembrado de um compromisso que não era dela. Percebido que acabou o sabonete, que a criança precisa levar alguma coisa amanhã, que há uma conta vencendo, uma consulta para marcar, uma mensagem da escola para responder.

Então ela trabalha.

Cumpre horário. Entrega resultado. Participa de reunião. Estuda. Empreende. Resolve problemas. Tem metas. Tem profissão. Tem currículo.

E quando termina?

Não termina.

Existe uma segunda jornada esperando.

Às vezes, uma terceira.

Porque existe uma diferença enorme entre fazer uma tarefa e ser responsável por lembrar que ela precisa ser feita.

É aí que mora uma parte silenciosa da sobrecarga feminina.

Não é apenas lavar a roupa.

É perceber que precisa lavar.

Não é apenas levar a criança ao médico.

É perceber o sintoma, decidir se precisa de médico, procurar profissional, marcar consulta, lembrar o horário, reorganizar a agenda, separar documentos, levar, ouvir as orientações, comprar o medicamento e acompanhar depois.

É administrar uma pequena empresa chamada família — frequentemente sem salário, sem férias, sem expediente definido e com uma cobrança emocional imensa.

E ainda chamamos isso simplesmente de “rotina”.

Por quê?

Porque durante muito tempo ensinaram às mulheres que cuidar é uma característica feminina, quase instintiva.

Como se nascêssemos sabendo.

Como se não cansasse.

Como se amar alguém significasse estar permanentemente disponível para ele.

O machismo nem sempre aparece gritando.

Às vezes ele aparece numa pergunta aparentemente inocente:

“Mas seu marido não ajuda?”

Ajuda?

Quando dois adultos constroem uma casa, por que um deles seria responsável e o outro ajudante?

Essa palavra revela muito.

Da mulher ainda se espera que seja uma boa profissional, mas também uma mãe presente. Uma esposa atenciosa. Uma filha disponível. Uma mulher bonita. Organizada. Interessante. Sexualmente disponível. Emocionalmente equilibrada.

E, por favor, não reclame demais.

Porque mulher cansada é “estressada”.

Mulher que estabelece limites é “difícil”.

Mulher que prioriza a carreira pode ser considerada egoísta.

Mulher que prioriza os filhos pode ouvir que “se abandonou”.

Se trabalha demais, negligencia a família.

Se reduz o trabalho para cuidar da família, talvez esteja desperdiçando seu potencial.

É uma prova em que as regras mudam enquanto estamos respondendo.

E talvez por isso tantas mulheres estejam cansadas sem sequer se permitirem dizer:

eu estou cansada.

Não é um cansaço que uma noite de sono necessariamente resolve.

É o cansaço de ser necessária o tempo inteiro.

De antecipar problemas.

De carregar agendas que não são apenas suas.

De administrar sentimentos.

De cuidar.

De produzir.

De corresponder.

De tentar não decepcionar ninguém.

E existe algo particularmente perverso nisso tudo: quando essa mulher finalmente entra em colapso, muitas vezes a solução apresentada também vira responsabilidade dela.

Faça exercício.

Medite.

Durma melhor.

Organize sua rotina.

Beba água.

Faça terapia.

Pratique autocuidado.

Tudo isso pode ser importante.

Mas precisamos tomar cuidado para não transformar o autocuidado em mais uma obrigação na agenda de uma mulher já sobrecarregada.

Porque não existe banho demorado capaz de corrigir desigualdade de gênero.

Não existe skincare que redistribua trabalho doméstico.

Não existe meditação que substitua divisão real de responsabilidades.

Não existe agenda perfeitamente organizada capaz de colocar 30 horas dentro de um dia de 24.

Talvez precisemos parar de ensinar apenas as mulheres a suportarem melhor a sobrecarga.

Precisamos também perguntar:

Por que elas estão tão sobrecarregadas?

Quem descansa enquanto elas organizam?

Quem pode esquecer porque sabe que alguém vai lembrar?

Quem consegue se dedicar integralmente ao trabalho porque existe outra pessoa garantindo que a vida continue funcionando nos bastidores?

Essas perguntas incomodam.

E devem incomodar.

Porque falar sobre burnout feminino sem falar sobre machismo, divisão sexual do trabalho e desigualdade de gênero é tratar a febre sem investigar a infecção.

E isso não significa negar nossas escolhas.

Podemos amar profundamente nossos filhos.

Podemos amar nossa casa.

Nosso casamento.

Nossa profissão.

Podemos sentir orgulho da mulher que construímos.

E ainda assim admitir:

é pesado.

Uma coisa não anula a outra.

Talvez o verdadeiro autocuidado comece justamente aí.

Não em acrescentar mais uma tarefa.

Mas em retirar algumas.

Em dizer não.

Em dividir.

Em pedir.

Em deixar de antecipar tudo.

Em permitir que outra pessoa também perceba, planeje e resolva.

Em compreender que descansar antes de adoecer não é preguiça.

Que ter limites não é egoísmo.

Que uma mulher não deveria precisar chegar ao próprio limite para conquistar o direito de parar.

Precisamos parar de glorificar a mulher que dá conta de tudo.

Porque talvez ela não esteja dando conta.

Talvez esteja apenas pagando silenciosamente o preço de manter tudo funcionando.

Com o sono.

Com o corpo.

Com a carreira.

Com a paciência.

Com os sonhos.

Com pedaços de si mesma.

Eu não quero que o autocuidado seja aquilo que fazemos quando sobra tempo.

Porque para muitas mulheres, tempo nunca sobra.

Quero que seja parte da vida.

Quero que uma mulher possa trabalhar sem sentir culpa por ser mãe.

Ser mãe sem desaparecer como mulher.

Ser esposa sem assumir sozinha a administração emocional e doméstica de uma família.

Ter ambição sem precisar pedir desculpas.

Descansar sem apresentar justificativa.

E dizer “hoje eu não consigo” sem sentir que fracassou.

Talvez essa seja uma conversa que ainda fazemos pouco.

Porque reconhecer o burnout da mulher moderna exige reconhecer uma verdade menos confortável:

não precisamos de mulheres cada vez mais fortes para suportar jornadas impossíveis.

Precisamos construir vidas em que elas não precisem ser fortes o tempo inteiro.

Autocuidado também é isso.

Não apenas cuidar de si para conseguir continuar dando conta de tudo.

Mas cuidar de si o suficiente para finalmente perguntar:

por que eu deveria dar conta de tudo?

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O direito de se indignar

Não. Não é sobre política.

É sobre dignidade.

É sobre o direito de olhar para o que acontece ao nosso redor e dizer: isso não está certo.

Nos ensinaram que viver em sociedade exige deveres. E eu concordo. Trabalhamos. Pagamos impostos. Cumprimos leis. Respeitamos regras. Acreditamos que esse pacto faz sentido porque, do outro lado, deveria existir um Estado comprometido em devolver à população aquilo que arrecada.

Mas e quando esse compromisso parece falhar?

Quando a carga tributária cresce, enquanto a sensação de insegurança permanece. Quando hospitais lotam, escolas enfrentam dificuldades, estradas se deterioram e tantos brasileiros sentem que precisam pagar duas vezes: uma pelos impostos e outra pelos serviços que deveriam receber. Em 2025, a carga tributária brasileira atingiu 32,4% do PIB, o maior nível da série histórica recente divulgada pelo Tesouro Nacional.

Não se trata de negar a importância dos tributos.

Uma sociedade justa depende deles.

O problema nunca foi contribuir. O problema é contribuir e, ainda assim, sentir que falta o essencial.

A Constituição Federal não foi escrita apenas para impor obrigações ao cidadão. Ela também estabeleceu deveres para o Estado. Entre eles, promover o bem comum, garantir direitos fundamentais e atuar com eficiência na administração pública. Não é um favor. É um compromisso constitucional.


Por isso, indignação não é sinônimo de radicalismo.


É cidadania.


É a recusa em aceitar que o pouco funcione como suficiente.


É olhar para países onde saúde, educação, segurança e infraestrutura entregam resultados compatíveis com o que a população financia e perguntar, com honestidade: por que aqui parece tão difícil?


Não quero privilégios.


Não quero milagres.


Quero coerência.


Quero que a carne tenha um preço compatível com o salário. Que o trabalhador consiga viver sem escolher entre abastecer a geladeira e pagar uma conta. Que empreender não seja uma corrida de obstáculos. Que envelhecer não signifique medo. Que criar filhos seja um projeto de esperança, e não de preocupação permanente.

Não me peçam para normalizar o absurdo.

Porque não é normal.

É legítimo cobrar transparência. É legítimo exigir eficiência. É legítimo fiscalizar quem administra recursos públicos. Democracia não termina no voto. Ela continua na cobrança diária, na participação e na vigilância da sociedade.

O Brasil é maior do que qualquer governo.

Maior do que qualquer partido.

Maior do que qualquer ideologia.


É feito de pessoas que acordam cedo, trabalham, estudam, empreendem, sonham e acreditam que o amanhã pode ser melhor do que o hoje.

É por essas pessoas que vale a pena permanecer inconformado.


Porque quem deixa de se indignar também corre o risco de deixar de acreditar.

E um país não se constrói apenas com arrecadação.


Constrói-se com confiança.

Com responsabilidade.

Com respeito ao cidadão.

E, acima de tudo, com a coragem de lembrar que direitos não existem apenas para serem escritos.

Existem para serem vividos.

domingo, 9 de agosto de 2026

As canções de domingo


Meu pai nunca foi exatamente um homem de grandes declarações.

Não me lembro de discursos emocionados, conversas intermináveis sobre sentimentos ou dessas cenas bonitas de filme em que pai e filha resolvem a vida inteira sentados na varanda.

Também, convenhamos, eu provavelmente ficaria preocupada se ele começasse agora.

— Pai, está tudo bem? O senhor quer me contar alguma coisa?

Mas havia Roberto Carlos aos domingos.

E hoje eu desconfio que aquilo queria dizer alguma coisa.

Talvez algumas pessoas tenham aprendido a dizer “eu te amo” com palavras. Outras colocavam uma música para tocar, aumentavam um pouquinho o volume e continuavam fazendo o que estavam fazendo como se não fosse absolutamente nada.

Meu pai é dessa geração.

A geração dos homens que demonstravam amor verificando se tinha comida em casa, se estava tudo certo, se ninguém estava fazendo alguma grande besteira — e, principalmente, ensinando muito bem a diferença entre o certo e o errado.

Essa parte, aliás, ele ensinou com bastante eficiência.

Meu pai sempre teve uma espécie de bússola moral muito própria.

O certo era certo.

O errado era errado.

E recurso da decisão?

Não me lembro de haver essa possibilidade.

Hoje acho graça.

Porque o tempo tem essa capacidade maravilhosa de mudar o lugar de onde observamos as coisas.

Quando somos crianças, enxergamos apenas o pai.

Depois crescemos e começamos a enxergar também o homem.

E eu passei a compreender melhor de onde ele veio.

Meu pai pertence a uma geração em que demonstrar amor não era necessariamente abraçar, conversar ou dizer.

Era fazer.

Era trabalhar.

Era providenciar.

Era cuidar para que não faltasse.

Era colocar Roberto Carlos para cantar no domingo e deixar que ele dissesse algumas coisas que talvez fossem difíceis demais para um homem daquela geração colocar em palavras.

E quer saber?

Talvez tenha funcionado.

Porque hoje nós cuidamos um do outro.

Do nosso jeito.

Não viramos subitamente aquelas pessoas que terminam toda ligação dizendo “eu te amo” quinze vezes. Seria uma mudança brusca demais para esta família e não queremos assustar ninguém.

Mas existe cuidado.

Existe presença.

Existe uma intimidade que talvez não precise ser explicada.

E existe algo muito bonito em chegar à vida adulta e perceber que nossos pais também tiveram uma história antes de nós.

Eles também aprenderam a amar do jeito que alguém lhes ensinou.

E fizeram o que puderam com aquilo que receberam.

Hoje eu consigo reconhecer muitas coisas que, quando menina, não sabia nomear.

Talvez aquele prato na mesa dissesse alguma coisa.

Talvez aquela preocupação disfarçada dissesse alguma coisa.

Talvez cada ensinamento sobre o certo e o errado dissesse alguma coisa.

E talvez Roberto Carlos, cantando pela casa num domingo qualquer, estivesse dizendo por ele:

“Eu estou aqui.”

Hoje também estou, pai.

E acho bonito saber que, depois de tantos anos, continuamos cuidando um do outro — cada um à sua maneira.

Sem precisar de grandes discursos.

Embora, ironicamente, eu tenha acabado de escrever um.

Feliz Dia dos Pais, pai.

E pode colocar Roberto Carlos.

Agora eu entendo.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O dia em que meu relógio inteligente me deu um presente

Ele não pediu demissão. Não fez discurso. Não avisou que estava indo embora.

O botão simplesmente quebrou.

Confesso que, no primeiro momento, pensei no transtorno. Afinal, como eu iria acompanhar meus passos, meus batimentos, meu sono, meus exercícios e todas aquelas estatísticas que, aparentemente, definem se estou vivendo direito?

Mas bastaram alguns dias sem ele no meu braço para perceber uma coisa curiosa.


Eu estava mais leve.


É engraçado como a tecnologia chega para facilitar a vida e, sem percebermos, começa a administrar cada minuto dela. O relógio vibrava para levantar, vibrava para beber água, vibrava porque eu estava sentada havia muito tempo, vibrava quando chegava uma mensagem, vibrava quando alguém ligava, vibrava quando eu alcançava uma meta e, às vezes, vibrava para me lembrar que eu ainda não tinha alcançado outra.

Era uma agenda ambulante presa ao meu pulso.

E eu, que já vivo uma rotina intensa, cheia de responsabilidades, trabalho, família, projetos e sonhos, não precisava de mais alguém me dizendo o tempo inteiro o que fazer.


Descobri algo quase revolucionário: eu sei quando estou cansada.

Sei quando preciso caminhar.

Sei quando estou feliz.

E, principalmente, sei quando preciso descansar.


Não preciso de um gráfico para validar isso.


Percebi que comecei a olhar menos para números e mais para mim. Passei a caminhar porque queria sentir o vento, não porque faltavam 843 passos para fechar um círculo colorido. Bebi água porque senti sede, não porque uma notificação me mandou. Dormi pensando em descansar, não em melhorar uma pontuação de qualidade do sono.

Existe uma liberdade enorme em não transformar cada aspecto da vida em uma métrica.

Não estou dizendo que relógios inteligentes são ruins. Muito pelo contrário. Eles ajudam muita gente e têm utilidade real. Mas, para mim, naquele momento da vida, ele havia deixado de ser uma ferramenta. Tinha se tornado mais uma voz competindo pela minha atenção.


E silêncio também é tecnologia de ponta.

Hoje olho para aquele botão quebrado e sorrio.

Quem diria que um defeito seria, na verdade, um livramento?


Às vezes, Deus nos desacostuma daquilo que nem percebíamos estar nos aprisionando.


E talvez o verdadeiro inteligente nunca tenha sido o relógio.

Talvez seja aprender a ouvir o próprio tempo.

terça-feira, 28 de julho de 2026

A vida além dos planos

 Sabe, os seus planos vão mudar.

E talvez mudem quando você achar que tudo já estava decidido. Talvez mudem sem aviso, numa manhã qualquer, depois de uma ligação, de uma perda, de um reencontro ou de uma porta que insistiu em permanecer fechada.

No começo, dói.


Porque a gente se apega ao caminho que desenhou. Faz planos, estabelece metas, imagina prazos. Acredita que crescer é seguir exatamente o roteiro que escreveu.


Mas a vida raramente respeita os nossos rascunhos.


Ela reescreve capítulos inteiros sem pedir licença.


E, por mais difícil que seja admitir, nem toda mudança vem para tirar. Algumas chegam para devolver partes de nós que estavam esquecidas.


Existe uma maturidade silenciosa em entender que nem sempre o melhor é aquilo que queríamos. Às vezes, o bem maior exige que a gente recue. Que espere. Que aceite. Que cuide. Que caminhe ao lado de alguém, quando tudo o que desejávamos era correr sozinhos.


Porque nem todo crescimento acontece na independência.


Há fases em que a maior força está justamente em reconhecer que precisamos do outro. De uma mão estendida. De um abraço. De uma palavra que nos devolve o fôlego. De quem acredita em nós quando já não conseguimos acreditar.


E isso não diminui ninguém.


Pelo contrário.

Só cresce de verdade quem entende que a vida não é construída apenas com conquistas extraordinárias, mas também com vitórias invisíveis.

Aquelas que ninguém aplaude.

Levantar mesmo cansado.

Continuar quando a vontade era desistir.

Escolher a paz em vez do orgulho.

Recomeçar sem fazer barulho.

Essas vitórias não aparecem nas fotografias. Não recebem medalhas. Mas são elas que sustentam tudo o que, um dia, será visto.

Sonhe.

Tenha metas.

Planeje.

Mas não transforme os seus planos em prisão.

Permita que Deus, a vida e o tempo também escrevam a história.

Porque, às vezes, o destino que nos espera é muito maior do que aquele que insistimos em controlar.

No fim, não será o quanto você conseguiu manter tudo exatamente como imaginou que definirá a sua caminhada.

Será a coragem de continuar caminhando quando tudo mudou.

E descobrir, olhando para trás, que a mudança que tanto assustava foi justamente a que fez você se tornar quem sempre esteve destinado a ser.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

Se existe uma coisa que aprendi convivendo com meu próprio corpo é que os hormônios são roteiristas criativos.

Muito criativos.

Tem dias em que você acorda se sentindo uma verdadeira deusa. O cabelo coopera. A pele brilha. O olhar parece mais vivo. A autoestima aparece sem esforço. Você passa pelo espelho e pensa:

"Olha só... quem é essa mulher?"

É quase uma versão cinematográfica de nós mesmas.

Mas os hormônios gostam de emoção.

Porque poucos dias depois, sem qualquer aviso prévio, surge ela.

A espinha.

Não uma espinha discreta e educada.

Uma espinha estratégica.

Daquelas que escolhem exatamente o centro do rosto para se manifestar.

E ela aparece acompanhada de amigas.

Porque aparentemente nenhuma delas gosta de ficar sozinha.

É curioso como o mesmo organismo capaz de nos dar aquela pele iluminada também consegue produzir uma pequena cadeia de montanhas na região do queixo em questão de horas.

E nós observamos tudo isso tentando manter a compostura.

A retenção de líquido chega.

As roupas mudam de comportamento.

O humor fica mais sensível.

A ansiedade faz visitas inesperadas.

As espinhas aparecem.

E ainda assim esperamos de nós mesmas a mesma performance, a mesma produtividade e a mesma disposição de todos os outros dias.

Como se nada estivesse acontecendo.

Mas está.

Existe uma dança hormonal acontecendo o tempo inteiro.

Uma coreografia silenciosa que influencia nossa energia, nosso sono, nossa fome, nossa pele, nosso humor e até a forma como enxergamos a nós mesmas.

O mais injusto é que, às vezes, olhamos uma foto antiga e pensamos:

"Nossa, eu estava tão bonita ali."

Quando, naquele dia da foto, provavelmente estávamos reclamando da barriga, da espinha, do cabelo ou de qualquer outro detalhe que ninguém além de nós percebia.

Porque mulheres têm esse talento estranho de enxergar defeitos com uma precisão científica.

Mas talvez a beleza esteja justamente nisso.

Na mulher que floresce.

Na mulher que descansa.

Na mulher que se sente linda.

Na mulher que acorda inchada.

Na mulher da pele perfeita.

Na mulher que está lutando contra uma invasão hormonal no queixo.

Porque nenhuma dessas versões é menos mulher.

Nenhuma delas é menos bonita.

São apenas capítulos diferentes da mesma história.

Uma história escrita por ciclos.

E talvez a maior maturidade seja entender que nem toda fase foi feita para florescer.

Algumas foram feitas para recolher.

Outras para recomeçar.

E todas elas, até aquelas acompanhadas de espinhas inesperadas e uma vontade irracional de comer chocolate às dez da manhã, fazem parte da beleza extraordinária de ser mulher.