Enquanto você escuta alguém, sua cabeça voa?
A minha costuma voar.
Pensa na lista do mercado, no prazo que está acabando, na roupa para dobrar, na mensagem que ainda preciso responder. O corpo está presente, mas a mente, muitas vezes, atravessa continentes.
Mas hoje não.
Hoje eu estive inteira.
Sentei diante dela e, por algumas horas, o mundo parou. Não existia celular. Não existia relógio. Não existiam tarefas urgentes. Existia apenas uma mulher tentando sobreviver ao peso que carrega.
E como ela carrega.
São muitos problemas. Mas quem não tem os seus?
A diferença é que algumas pessoas travam batalhas que ninguém vê.
Hoje eu segurei sua mão. Segurei seu choro. E, em silêncio, desejei poder fazer mais. Desejei arrancar dela um pouco da dor, dividir o peso da mochila invisível que ela leva todos os dias.
Porque viver já exige coragem.
Viver enquanto a mente dispara mil pensamentos ao mesmo tempo exige ainda mais.
Para quem convive com a bipolaridade, com a ansiedade, com medos que se multiplicam dentro da própria cabeça, cada dia vencido é uma conquista que quase ninguém aplaude.
É como um código executando dezenas de processos simultaneamente. Informações chegando sem parar. Emoções disputando espaço. Lembranças, preocupações, inseguranças e responsabilidades rodando juntas, sem botão de pausa.
E, mesmo assim, ela continua.
Mesmo quando o mundo parece desabar.
Mesmo quando tudo dentro dela grita para desistir.
Ela continua.
Foi olhando para ela que percebi algo importante: não são os laudos que definem uma pessoa. Não são os diagnósticos. Não são as siglas, os relatórios ou os códigos escritos em um papel.
O que define alguém é a sua capacidade de continuar caminhando quando tudo parece pesado demais.
E ela caminha.
Talvez mais devagar em alguns dias.
Talvez com lágrimas nos olhos em outros.
Mas caminha.
Quando saí da casa dela, percebi que o relógio não seria capaz de medir aquele encontro. O tempo que passei ouvindo nunca será suficiente.
Porque algumas pessoas precisam mais do que remédios.
Precisam de presença.
Precisam de escuta.
Precisam de alguém que as lembre, de vez em quando, daquilo que elas esquecem quando a tempestade chega:
Você é forte.
Muito mais forte do que imagina.
E, enquanto houver um novo amanhecer, ainda existe uma página em branco esperando pela sua história.