Início de mais um ano letivo.
Mais um semestre na tecnologia da informação.
Mais uma oportunidade de atravessar territórios que, historicamente, não foram pensados para nós.
Ao me deparar com um mural que homenageia mulheres formadas no IMD, uma frase ecoou em mim:
“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”
E eu pensei: quantas vezes tentaram nos definir?
A mulher sensível demais.
A mulher emocional demais.
A mulher que “talvez não tenha perfil para exatas”.
A mulher que deveria escolher algo “mais compatível”.
A mulher que precisa provar duas vezes o que o homem prova uma.
A tecnologia ainda carrega desigualdades estruturais.
Os números mostram a baixa representatividade feminina em cursos de computação, engenharia e áreas técnicas. Mas o problema não é capacidade. Nunca foi.
O problema sempre foi acesso, incentivo e permanência.
Quantas meninas ouviram, ainda na infância, que “isso não é coisa de menina”?
Quantas desistiram antes mesmo de tentar?
Quantas continuam, mas silenciosamente duvidando se pertencem?
Eu estou em transição. Sou assistente social, mãe, empreendedora, estudante de TI. Estou reaprendendo linguagens, lógica, códigos e algoritmos. E não é fácil. Mas também não é impossível.
A questão nunca foi se somos capazes.
A questão é se estamos dispostas a enfrentar o desconforto.
A Inteligência Artificial, por exemplo, não é neutra. Ela carrega vieses, reproduz desigualdades, amplia invisibilidades quando não é construída com diversidade. E é justamente por isso que precisamos estar nesses espaços.
Precisamos de mulheres desenvolvendo sistemas.
Projetando soluções.
Pensando ética.
Questionando padrões.
Criando tecnologia que considere pessoas reais.
Não se trata apenas de ocupar cadeiras.
Trata-se de influenciar decisões.
A cada novo projeto que inicio, a cada código que tento entender, a cada erro que enfrento, eu escolho continuar. Não por vaidade. Mas por convicção.
Porque tecnologia é poder.
E mulheres precisam estar onde o poder é construído.
Também é preciso coragem para aprender. Coragem para errar publicamente. Coragem para não dominar tudo imediatamente. Coragem para não ser a melhor da sala, mas ainda assim permanecer.
E, acima de tudo, coragem para não se sujeitar.
Que nada nos defina.
Que nada nos limite.
Que nada nos silencie.
Que possamos inspirar meninas não apenas com discursos, mas com presença.
Que possamos dizer às mulheres que é possível recomeçar aos 30, aos 40, aos 50.
Que possamos transformar tecnologia em ferramenta de inclusão, e não de exclusão.
Este novo semestre não é apenas sobre disciplinas e avaliações.
É sobre identidade.
É sobre ocupar espaços com consciência.
É sobre fazer o melhor que posso com IA — com ética, com propósito e com humanidade.
E talvez seja isso o verdadeiro empoderamento:
não esperar permissão para existir onde sempre tivemos o direito de estar.