quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Chego em mim

 Fazer aniversário é uma coisa curiosa.


Quando a gente é criança, conta quantos anos está fazendo. Depois dos trinta, aparentemente, a gente começa a contar o que sobreviveu aos anos.


E eu vou fazer 33.


Trinta e três.


Uma idade suficientemente adulta para eu já ter aprendido muita coisa e suficientemente jovem para continuar fazendo algumas escolhas questionáveis e chamando de “experiência”.


Essa última semana tenho pensado muito no saldo.


Não naquele saldo bancário — esse eu prefiro consultar em horário comercial e emocionalmente acompanhada.


Falo do outro.


O saldo da vida.


Quem ficou.

Quem foi.

Quem eu precisei deixar ir.

Quem permaneceu quando permanecer deixou de ser conveniente.


E, principalmente, quem eu me tornei depois de tudo isso.


Porque aconteceu muita coisa.


Eu fiquei forte.


Não aquela força bonita de frase motivacional, com pôr do sol ao fundo e uma mulher olhando para o horizonte.

Fiquei forte do jeito menos cinematográfico possível.

Fiquei forte porque algumas vezes simplesmente não havia outra opção.

Adoeci.


E talvez poucas coisas reorganizem tanto nossas prioridades quanto perceber que o corpo também sabe dizer “chega”. Às vezes ele diz baixinho. Às vezes manda um memorando. Às vezes convoca uma reunião extraordinária com todos os órgãos e informa:


— Minha querida, nós precisamos conversar.


Eu mudei hábitos.


Alguns por escolha. Outros porque a vida praticamente me pegou pelos ombros e disse: “Agora você vai aprender a se cuidar.”

Aprendi que autocuidado não é necessariamente uma banheira cheia de espuma, velas aromáticas e uma taça de vinho estrategicamente posicionada.


Às vezes autocuidado é dormir.


É treinar.


É dizer não.


É parar.


É voltar.


É entender que o corpo onde eu moro precisa durar o tempo suficiente para viver tudo aquilo que minha cabeça ainda inventa.


Minha família cresceu.


E, curiosamente, quanto mais gente chegou, mais o amor pareceu encontrar espaço.


A casa ficou mais barulhenta.


A rotina, mais caótica.


As preocupações, maiores.


O silêncio virou artigo de luxo.


Mas o amor…


O amor aumentou.


E descobri uma coisa bonita nesses anos: amor de verdade não elimina as dificuldades. Ele apenas faz com que algumas delas valham a pena.


E dificuldades vieram.


Ah, vieram.


Algumas bateram na porta.


Outras aparentemente tinham cópia da chave.


Algumas passaram rapidamente. Outras sentaram no sofá, abriram a geladeira e pareciam não ter nenhuma intenção de ir embora.


Mas foram.


Ou eu passei por elas.


Talvez seja isso que chamamos de superar: não necessariamente vencer de forma triunfal, mas olhar para trás e perceber que aquilo que parecia enorme agora cabe dentro de uma lembrança.


Eu evoluí.


E também regredi.


Sim.


Porque uma das maiores mentiras que contamos sobre amadurecer é imaginar que evolução seja uma escada.


Não é.


É mais parecido com andar pela casa no escuro procurando o interruptor: você avança, bate o dedinho em algum móvel, xinga discretamente, volta dois passos, encontra uma parede que jurava não estar ali e, eventualmente, acha a luz.


Cresci em algumas áreas.


Em outras, ainda estou aprendendo coisas que achei que já soubesse.


Mudei de opinião.


Mudei de planos.


Mudei de profissão.


Fiz transição de carreira.


Comecei caminhos que anos atrás talvez nem conseguisse imaginar.

E precisei aceitar que mudar de direção não significa necessariamente ter escolhido errado antes. Às vezes aquela estrada simplesmente nos trouxe até onde precisava.


Talvez o maior presente de chegar aos 33 seja esse: eu já não preciso que todas as versões anteriores de mim façam sentido.


Algumas fizeram o melhor que podiam.


Algumas foram corajosas.


Algumas foram medrosas.


Algumas aceitaram menos do que mereciam.


Algumas acreditaram demais.


Outras desconfiaram de tudo.


Algumas estavam completamente perdidas enquanto diziam para todo mundo:


— Está tudo sob controle.


Não estava.


Mas veja só.


Chegamos até aqui.


E quando penso nos que ficam, percebo que o tempo é um excelente editor.


Ele corta excessos.


Reescreve relações.


Apaga algumas certezas.


Mantém algumas pessoas.


E revela outras.


Aos 33, começo a entender que quantidade nunca foi sinônimo de pertencimento.


Há gente que passa anos ao nosso lado e nunca verdadeiramente fica.


E há quem, mesmo distante, tenha um lugar permanente dentro da nossa história.


Hoje valorizo os que ficam quando não há festa.


Os que perguntam e esperam a resposta.


Os que conhecem minhas versões menos interessantes. Os que não precisam que eu esteja forte o tempo inteiro. Os que comemoram minhas conquistas sem transformá-las em competição. Os que sentam à mesa da minha vida sem precisar diminuir ninguém para ocupar espaço.


Esse é um saldo bonito.


Não perfeito.


Bonito.


Porque também perdi.


Errei.


Me decepcionei.


Decepcionei pessoas.


Tive medo.


Voltei atrás.


Insisti quando deveria ter ido embora e fui embora de lugares onde talvez pudesse ter ficado mais um pouco.


Mas viver também é isso.


Não existe maturidade sem algum constrangimento retrospectivo.

Se você olha para dez anos atrás e concorda absolutamente com tudo que fez, talvez tenhamos um problema.


Eu olho e penso:


— Meu Deus, mulher.


E depois penso:


— Mas obrigada.


Porque foi ela que me trouxe até aqui.

Então não quero chegar aos 33 fazendo uma lista apenas das minhas vitórias.


Quero chegar inteira.


Com as cicatrizes.


Com as mudanças.


Com as pessoas que ficaram.


Com os hábitos que precisei reconstruir.


Com os sonhos que ainda não realizei.


Com os que abandonei.


Com os novos que apareceram pelo caminho.


Com a família que cresceu.


Com o amor que aumentou.


Com a mulher que adoeceu e precisou aprender a cuidar de si.


Com a profissional que teve coragem de mudar.


Com a mulher que avançou muito em algumas coisas e ainda tropeça magnificamente em outras.

Porque talvez amadurecer não seja finalmente ter todas as respostas.

Talvez seja parar de ter vergonha das perguntas.


Daqui a pouco faço 33.


Não chego onde imaginei que estaria.


Chego em um lugar que, sinceramente, acho muito mais interessante: chego em mim.


Mais consciente de quem sou.


Mais cuidadosa com quem deixo ficar.


Mais seletiva com aquilo que merece minha energia.


Mais grata pelo amor que construí.


Mais respeitosa com meu corpo.


Mais desconfiada das urgências.


Mais apaixonada pelas pequenas vitórias que ninguém aplaude.


Ainda intensa.


Ainda sonhadora.


Ainda querendo fazer umas quinze coisas ao mesmo tempo e, aparentemente, acreditando que o dia possui umas 37 horas.


Algumas características são patrimônio histórico e não podem mais ser demolidas.


Mas estou aqui.


Depois de tudo.


Não intacta.


Transformada.


E talvez esse seja o melhor saldo que uma mulher possa carregar para um novo ano de vida: não ter passado ilesa pelo tempo.


Ter permitido que ele a ensinasse.


Que venham os 33.


Eu ainda não sei exatamente o que eles vão trazer.

Mas, considerando tudo o que já atravessei, tenho uma certeza: essa mulher que chega até eles conhece melhor a própria força.


E, finalmente, sabe que não precisa provar isso o tempo inteiro.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A camisa da união


Ultimamente, essas duas criaturas têm brigado por tudo.


Pelo brinquedo.

Pelo lugar no sofá.

Por quem chegou primeiro.

Por quem olhou para quem.

E, provavelmente, por questões diplomáticas que nós, adultos, jamais seremos capazes de compreender.


Mas também brincam. Muito.

Inventam mundos, dão gargalhadas, aprontam juntos e, cinco minutos depois de uma discussão digna de audiência de conciliação, já estão inseparáveis novamente.

Hoje surgiu uma nova técnica de resolução de conflitos: a camisa da união.


Brigaram? Ficam juntos.

Literalmente. 


E olhando para essa foto, eu penso que talvez irmãos sejam exatamente isso: duas pessoas aprendendo, desde muito cedo, que é possível amar alguém profundamente e, ao mesmo tempo, ter uma vontade igualmente profunda de mandá-lo para bem longe.


Eles brigam porque estão aprendendo a dividir espaço, atenção, vontades e limites. Mas, no meio desse pequeno caos cotidiano, estão construindo uma relação que é só deles.


Eu sei que ainda teremos muitas discussões pela frente.

Mas espero que, entre uma briga e outra, eles nunca esqueçam aquilo que essa camisa improvisada acabou dizendo tão bem:

vocês podem até querer se soltar de vez em quando… mas é muito bonito vê-los crescendo juntos. 

P.S.: pela expressão dos dois, desconfio que a camisa da união foi considerada uma excelente brincadeira e, portanto, perdeu completamente sua função disciplinar. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Por que não falamos do burnout da mulher moderna?


Talvez porque tenhamos aprendido a chamar de força aquilo que, muitas vezes, é exaustão.

A mulher moderna trabalha.

Mas antes de trabalhar, talvez tenha acordado alguém. Preparado alguma coisa. Conferido uma mochila. Lembrado de um compromisso que não era dela. Percebido que acabou o sabonete, que a criança precisa levar alguma coisa amanhã, que há uma conta vencendo, uma consulta para marcar, uma mensagem da escola para responder.

Então ela trabalha.

Cumpre horário. Entrega resultado. Participa de reunião. Estuda. Empreende. Resolve problemas. Tem metas. Tem profissão. Tem currículo.

E quando termina?

Não termina.

Existe uma segunda jornada esperando.

Às vezes, uma terceira.

Porque existe uma diferença enorme entre fazer uma tarefa e ser responsável por lembrar que ela precisa ser feita.

É aí que mora uma parte silenciosa da sobrecarga feminina.

Não é apenas lavar a roupa.

É perceber que precisa lavar.

Não é apenas levar a criança ao médico.

É perceber o sintoma, decidir se precisa de médico, procurar profissional, marcar consulta, lembrar o horário, reorganizar a agenda, separar documentos, levar, ouvir as orientações, comprar o medicamento e acompanhar depois.

É administrar uma pequena empresa chamada família — frequentemente sem salário, sem férias, sem expediente definido e com uma cobrança emocional imensa.

E ainda chamamos isso simplesmente de “rotina”.

Por quê?

Porque durante muito tempo ensinaram às mulheres que cuidar é uma característica feminina, quase instintiva.

Como se nascêssemos sabendo.

Como se não cansasse.

Como se amar alguém significasse estar permanentemente disponível para ele.

O machismo nem sempre aparece gritando.

Às vezes ele aparece numa pergunta aparentemente inocente:

“Mas seu marido não ajuda?”

Ajuda?

Quando dois adultos constroem uma casa, por que um deles seria responsável e o outro ajudante?

Essa palavra revela muito.

Da mulher ainda se espera que seja uma boa profissional, mas também uma mãe presente. Uma esposa atenciosa. Uma filha disponível. Uma mulher bonita. Organizada. Interessante. Sexualmente disponível. Emocionalmente equilibrada.

E, por favor, não reclame demais.

Porque mulher cansada é “estressada”.

Mulher que estabelece limites é “difícil”.

Mulher que prioriza a carreira pode ser considerada egoísta.

Mulher que prioriza os filhos pode ouvir que “se abandonou”.

Se trabalha demais, negligencia a família.

Se reduz o trabalho para cuidar da família, talvez esteja desperdiçando seu potencial.

É uma prova em que as regras mudam enquanto estamos respondendo.

E talvez por isso tantas mulheres estejam cansadas sem sequer se permitirem dizer:

eu estou cansada.

Não é um cansaço que uma noite de sono necessariamente resolve.

É o cansaço de ser necessária o tempo inteiro.

De antecipar problemas.

De carregar agendas que não são apenas suas.

De administrar sentimentos.

De cuidar.

De produzir.

De corresponder.

De tentar não decepcionar ninguém.

E existe algo particularmente perverso nisso tudo: quando essa mulher finalmente entra em colapso, muitas vezes a solução apresentada também vira responsabilidade dela.

Faça exercício.

Medite.

Durma melhor.

Organize sua rotina.

Beba água.

Faça terapia.

Pratique autocuidado.

Tudo isso pode ser importante.

Mas precisamos tomar cuidado para não transformar o autocuidado em mais uma obrigação na agenda de uma mulher já sobrecarregada.

Porque não existe banho demorado capaz de corrigir desigualdade de gênero.

Não existe skincare que redistribua trabalho doméstico.

Não existe meditação que substitua divisão real de responsabilidades.

Não existe agenda perfeitamente organizada capaz de colocar 30 horas dentro de um dia de 24.

Talvez precisemos parar de ensinar apenas as mulheres a suportarem melhor a sobrecarga.

Precisamos também perguntar:

Por que elas estão tão sobrecarregadas?

Quem descansa enquanto elas organizam?

Quem pode esquecer porque sabe que alguém vai lembrar?

Quem consegue se dedicar integralmente ao trabalho porque existe outra pessoa garantindo que a vida continue funcionando nos bastidores?

Essas perguntas incomodam.

E devem incomodar.

Porque falar sobre burnout feminino sem falar sobre machismo, divisão sexual do trabalho e desigualdade de gênero é tratar a febre sem investigar a infecção.

E isso não significa negar nossas escolhas.

Podemos amar profundamente nossos filhos.

Podemos amar nossa casa.

Nosso casamento.

Nossa profissão.

Podemos sentir orgulho da mulher que construímos.

E ainda assim admitir:

é pesado.

Uma coisa não anula a outra.

Talvez o verdadeiro autocuidado comece justamente aí.

Não em acrescentar mais uma tarefa.

Mas em retirar algumas.

Em dizer não.

Em dividir.

Em pedir.

Em deixar de antecipar tudo.

Em permitir que outra pessoa também perceba, planeje e resolva.

Em compreender que descansar antes de adoecer não é preguiça.

Que ter limites não é egoísmo.

Que uma mulher não deveria precisar chegar ao próprio limite para conquistar o direito de parar.

Precisamos parar de glorificar a mulher que dá conta de tudo.

Porque talvez ela não esteja dando conta.

Talvez esteja apenas pagando silenciosamente o preço de manter tudo funcionando.

Com o sono.

Com o corpo.

Com a carreira.

Com a paciência.

Com os sonhos.

Com pedaços de si mesma.

Eu não quero que o autocuidado seja aquilo que fazemos quando sobra tempo.

Porque para muitas mulheres, tempo nunca sobra.

Quero que seja parte da vida.

Quero que uma mulher possa trabalhar sem sentir culpa por ser mãe.

Ser mãe sem desaparecer como mulher.

Ser esposa sem assumir sozinha a administração emocional e doméstica de uma família.

Ter ambição sem precisar pedir desculpas.

Descansar sem apresentar justificativa.

E dizer “hoje eu não consigo” sem sentir que fracassou.

Talvez essa seja uma conversa que ainda fazemos pouco.

Porque reconhecer o burnout da mulher moderna exige reconhecer uma verdade menos confortável:

não precisamos de mulheres cada vez mais fortes para suportar jornadas impossíveis.

Precisamos construir vidas em que elas não precisem ser fortes o tempo inteiro.

Autocuidado também é isso.

Não apenas cuidar de si para conseguir continuar dando conta de tudo.

Mas cuidar de si o suficiente para finalmente perguntar:

por que eu deveria dar conta de tudo?

terça-feira, 11 de agosto de 2026

O direito de se indignar

Não. Não é sobre política.

É sobre dignidade.

É sobre o direito de olhar para o que acontece ao nosso redor e dizer: isso não está certo.

Nos ensinaram que viver em sociedade exige deveres. E eu concordo. Trabalhamos. Pagamos impostos. Cumprimos leis. Respeitamos regras. Acreditamos que esse pacto faz sentido porque, do outro lado, deveria existir um Estado comprometido em devolver à população aquilo que arrecada.

Mas e quando esse compromisso parece falhar?

Quando a carga tributária cresce, enquanto a sensação de insegurança permanece. Quando hospitais lotam, escolas enfrentam dificuldades, estradas se deterioram e tantos brasileiros sentem que precisam pagar duas vezes: uma pelos impostos e outra pelos serviços que deveriam receber. Em 2025, a carga tributária brasileira atingiu 32,4% do PIB, o maior nível da série histórica recente divulgada pelo Tesouro Nacional.

Não se trata de negar a importância dos tributos.

Uma sociedade justa depende deles.

O problema nunca foi contribuir. O problema é contribuir e, ainda assim, sentir que falta o essencial.

A Constituição Federal não foi escrita apenas para impor obrigações ao cidadão. Ela também estabeleceu deveres para o Estado. Entre eles, promover o bem comum, garantir direitos fundamentais e atuar com eficiência na administração pública. Não é um favor. É um compromisso constitucional.


Por isso, indignação não é sinônimo de radicalismo.


É cidadania.


É a recusa em aceitar que o pouco funcione como suficiente.


É olhar para países onde saúde, educação, segurança e infraestrutura entregam resultados compatíveis com o que a população financia e perguntar, com honestidade: por que aqui parece tão difícil?


Não quero privilégios.


Não quero milagres.


Quero coerência.


Quero que a carne tenha um preço compatível com o salário. Que o trabalhador consiga viver sem escolher entre abastecer a geladeira e pagar uma conta. Que empreender não seja uma corrida de obstáculos. Que envelhecer não signifique medo. Que criar filhos seja um projeto de esperança, e não de preocupação permanente.

Não me peçam para normalizar o absurdo.

Porque não é normal.

É legítimo cobrar transparência. É legítimo exigir eficiência. É legítimo fiscalizar quem administra recursos públicos. Democracia não termina no voto. Ela continua na cobrança diária, na participação e na vigilância da sociedade.

O Brasil é maior do que qualquer governo.

Maior do que qualquer partido.

Maior do que qualquer ideologia.


É feito de pessoas que acordam cedo, trabalham, estudam, empreendem, sonham e acreditam que o amanhã pode ser melhor do que o hoje.

É por essas pessoas que vale a pena permanecer inconformado.


Porque quem deixa de se indignar também corre o risco de deixar de acreditar.

E um país não se constrói apenas com arrecadação.


Constrói-se com confiança.

Com responsabilidade.

Com respeito ao cidadão.

E, acima de tudo, com a coragem de lembrar que direitos não existem apenas para serem escritos.

Existem para serem vividos.

domingo, 9 de agosto de 2026

As canções de domingo


Meu pai nunca foi exatamente um homem de grandes declarações.

Não me lembro de discursos emocionados, conversas intermináveis sobre sentimentos ou dessas cenas bonitas de filme em que pai e filha resolvem a vida inteira sentados na varanda.

Também, convenhamos, eu provavelmente ficaria preocupada se ele começasse agora.

— Pai, está tudo bem? O senhor quer me contar alguma coisa?

Mas havia Roberto Carlos aos domingos.

E hoje eu desconfio que aquilo queria dizer alguma coisa.

Talvez algumas pessoas tenham aprendido a dizer “eu te amo” com palavras. Outras colocavam uma música para tocar, aumentavam um pouquinho o volume e continuavam fazendo o que estavam fazendo como se não fosse absolutamente nada.

Meu pai é dessa geração.

A geração dos homens que demonstravam amor verificando se tinha comida em casa, se estava tudo certo, se ninguém estava fazendo alguma grande besteira — e, principalmente, ensinando muito bem a diferença entre o certo e o errado.

Essa parte, aliás, ele ensinou com bastante eficiência.

Meu pai sempre teve uma espécie de bússola moral muito própria.

O certo era certo.

O errado era errado.

E recurso da decisão?

Não me lembro de haver essa possibilidade.

Hoje acho graça.

Porque o tempo tem essa capacidade maravilhosa de mudar o lugar de onde observamos as coisas.

Quando somos crianças, enxergamos apenas o pai.

Depois crescemos e começamos a enxergar também o homem.

E eu passei a compreender melhor de onde ele veio.

Meu pai pertence a uma geração em que demonstrar amor não era necessariamente abraçar, conversar ou dizer.

Era fazer.

Era trabalhar.

Era providenciar.

Era cuidar para que não faltasse.

Era colocar Roberto Carlos para cantar no domingo e deixar que ele dissesse algumas coisas que talvez fossem difíceis demais para um homem daquela geração colocar em palavras.

E quer saber?

Talvez tenha funcionado.

Porque hoje nós cuidamos um do outro.

Do nosso jeito.

Não viramos subitamente aquelas pessoas que terminam toda ligação dizendo “eu te amo” quinze vezes. Seria uma mudança brusca demais para esta família e não queremos assustar ninguém.

Mas existe cuidado.

Existe presença.

Existe uma intimidade que talvez não precise ser explicada.

E existe algo muito bonito em chegar à vida adulta e perceber que nossos pais também tiveram uma história antes de nós.

Eles também aprenderam a amar do jeito que alguém lhes ensinou.

E fizeram o que puderam com aquilo que receberam.

Hoje eu consigo reconhecer muitas coisas que, quando menina, não sabia nomear.

Talvez aquele prato na mesa dissesse alguma coisa.

Talvez aquela preocupação disfarçada dissesse alguma coisa.

Talvez cada ensinamento sobre o certo e o errado dissesse alguma coisa.

E talvez Roberto Carlos, cantando pela casa num domingo qualquer, estivesse dizendo por ele:

“Eu estou aqui.”

Hoje também estou, pai.

E acho bonito saber que, depois de tantos anos, continuamos cuidando um do outro — cada um à sua maneira.

Sem precisar de grandes discursos.

Embora, ironicamente, eu tenha acabado de escrever um.

Feliz Dia dos Pais, pai.

E pode colocar Roberto Carlos.

Agora eu entendo.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

O dia em que meu relógio inteligente me deu um presente

Ele não pediu demissão. Não fez discurso. Não avisou que estava indo embora.

O botão simplesmente quebrou.

Confesso que, no primeiro momento, pensei no transtorno. Afinal, como eu iria acompanhar meus passos, meus batimentos, meu sono, meus exercícios e todas aquelas estatísticas que, aparentemente, definem se estou vivendo direito?

Mas bastaram alguns dias sem ele no meu braço para perceber uma coisa curiosa.


Eu estava mais leve.


É engraçado como a tecnologia chega para facilitar a vida e, sem percebermos, começa a administrar cada minuto dela. O relógio vibrava para levantar, vibrava para beber água, vibrava porque eu estava sentada havia muito tempo, vibrava quando chegava uma mensagem, vibrava quando alguém ligava, vibrava quando eu alcançava uma meta e, às vezes, vibrava para me lembrar que eu ainda não tinha alcançado outra.

Era uma agenda ambulante presa ao meu pulso.

E eu, que já vivo uma rotina intensa, cheia de responsabilidades, trabalho, família, projetos e sonhos, não precisava de mais alguém me dizendo o tempo inteiro o que fazer.


Descobri algo quase revolucionário: eu sei quando estou cansada.

Sei quando preciso caminhar.

Sei quando estou feliz.

E, principalmente, sei quando preciso descansar.


Não preciso de um gráfico para validar isso.


Percebi que comecei a olhar menos para números e mais para mim. Passei a caminhar porque queria sentir o vento, não porque faltavam 843 passos para fechar um círculo colorido. Bebi água porque senti sede, não porque uma notificação me mandou. Dormi pensando em descansar, não em melhorar uma pontuação de qualidade do sono.

Existe uma liberdade enorme em não transformar cada aspecto da vida em uma métrica.

Não estou dizendo que relógios inteligentes são ruins. Muito pelo contrário. Eles ajudam muita gente e têm utilidade real. Mas, para mim, naquele momento da vida, ele havia deixado de ser uma ferramenta. Tinha se tornado mais uma voz competindo pela minha atenção.


E silêncio também é tecnologia de ponta.

Hoje olho para aquele botão quebrado e sorrio.

Quem diria que um defeito seria, na verdade, um livramento?


Às vezes, Deus nos desacostuma daquilo que nem percebíamos estar nos aprisionando.


E talvez o verdadeiro inteligente nunca tenha sido o relógio.

Talvez seja aprender a ouvir o próprio tempo.

terça-feira, 28 de julho de 2026

A vida além dos planos

 Sabe, os seus planos vão mudar.

E talvez mudem quando você achar que tudo já estava decidido. Talvez mudem sem aviso, numa manhã qualquer, depois de uma ligação, de uma perda, de um reencontro ou de uma porta que insistiu em permanecer fechada.

No começo, dói.


Porque a gente se apega ao caminho que desenhou. Faz planos, estabelece metas, imagina prazos. Acredita que crescer é seguir exatamente o roteiro que escreveu.


Mas a vida raramente respeita os nossos rascunhos.


Ela reescreve capítulos inteiros sem pedir licença.


E, por mais difícil que seja admitir, nem toda mudança vem para tirar. Algumas chegam para devolver partes de nós que estavam esquecidas.


Existe uma maturidade silenciosa em entender que nem sempre o melhor é aquilo que queríamos. Às vezes, o bem maior exige que a gente recue. Que espere. Que aceite. Que cuide. Que caminhe ao lado de alguém, quando tudo o que desejávamos era correr sozinhos.


Porque nem todo crescimento acontece na independência.


Há fases em que a maior força está justamente em reconhecer que precisamos do outro. De uma mão estendida. De um abraço. De uma palavra que nos devolve o fôlego. De quem acredita em nós quando já não conseguimos acreditar.


E isso não diminui ninguém.


Pelo contrário.

Só cresce de verdade quem entende que a vida não é construída apenas com conquistas extraordinárias, mas também com vitórias invisíveis.

Aquelas que ninguém aplaude.

Levantar mesmo cansado.

Continuar quando a vontade era desistir.

Escolher a paz em vez do orgulho.

Recomeçar sem fazer barulho.

Essas vitórias não aparecem nas fotografias. Não recebem medalhas. Mas são elas que sustentam tudo o que, um dia, será visto.

Sonhe.

Tenha metas.

Planeje.

Mas não transforme os seus planos em prisão.

Permita que Deus, a vida e o tempo também escrevam a história.

Porque, às vezes, o destino que nos espera é muito maior do que aquele que insistimos em controlar.

No fim, não será o quanto você conseguiu manter tudo exatamente como imaginou que definirá a sua caminhada.

Será a coragem de continuar caminhando quando tudo mudou.

E descobrir, olhando para trás, que a mudança que tanto assustava foi justamente a que fez você se tornar quem sempre esteve destinado a ser.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

Se existe uma coisa que aprendi convivendo com meu próprio corpo é que os hormônios são roteiristas criativos.

Muito criativos.

Tem dias em que você acorda se sentindo uma verdadeira deusa. O cabelo coopera. A pele brilha. O olhar parece mais vivo. A autoestima aparece sem esforço. Você passa pelo espelho e pensa:

"Olha só... quem é essa mulher?"

É quase uma versão cinematográfica de nós mesmas.

Mas os hormônios gostam de emoção.

Porque poucos dias depois, sem qualquer aviso prévio, surge ela.

A espinha.

Não uma espinha discreta e educada.

Uma espinha estratégica.

Daquelas que escolhem exatamente o centro do rosto para se manifestar.

E ela aparece acompanhada de amigas.

Porque aparentemente nenhuma delas gosta de ficar sozinha.

É curioso como o mesmo organismo capaz de nos dar aquela pele iluminada também consegue produzir uma pequena cadeia de montanhas na região do queixo em questão de horas.

E nós observamos tudo isso tentando manter a compostura.

A retenção de líquido chega.

As roupas mudam de comportamento.

O humor fica mais sensível.

A ansiedade faz visitas inesperadas.

As espinhas aparecem.

E ainda assim esperamos de nós mesmas a mesma performance, a mesma produtividade e a mesma disposição de todos os outros dias.

Como se nada estivesse acontecendo.

Mas está.

Existe uma dança hormonal acontecendo o tempo inteiro.

Uma coreografia silenciosa que influencia nossa energia, nosso sono, nossa fome, nossa pele, nosso humor e até a forma como enxergamos a nós mesmas.

O mais injusto é que, às vezes, olhamos uma foto antiga e pensamos:

"Nossa, eu estava tão bonita ali."

Quando, naquele dia da foto, provavelmente estávamos reclamando da barriga, da espinha, do cabelo ou de qualquer outro detalhe que ninguém além de nós percebia.

Porque mulheres têm esse talento estranho de enxergar defeitos com uma precisão científica.

Mas talvez a beleza esteja justamente nisso.

Na mulher que floresce.

Na mulher que descansa.

Na mulher que se sente linda.

Na mulher que acorda inchada.

Na mulher da pele perfeita.

Na mulher que está lutando contra uma invasão hormonal no queixo.

Porque nenhuma dessas versões é menos mulher.

Nenhuma delas é menos bonita.

São apenas capítulos diferentes da mesma história.

Uma história escrita por ciclos.

E talvez a maior maturidade seja entender que nem toda fase foi feita para florescer.

Algumas foram feitas para recolher.

Outras para recomeçar.

E todas elas, até aquelas acompanhadas de espinhas inesperadas e uma vontade irracional de comer chocolate às dez da manhã, fazem parte da beleza extraordinária de ser mulher.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O peso que não aparece


Enquanto você escuta alguém, sua cabeça voa?

A minha costuma voar.

Pensa na lista do mercado, no prazo que está acabando, na roupa para dobrar, na mensagem que ainda preciso responder. O corpo está presente, mas a mente, muitas vezes, atravessa continentes.

Mas hoje não.

Hoje eu estive inteira.

Sentei diante dela e, por algumas horas, o mundo parou. Não existia celular. Não existia relógio. Não existiam tarefas urgentes. Existia apenas uma mulher tentando sobreviver ao peso que carrega.

E como ela carrega.

São muitos problemas. Mas quem não tem os seus?

A diferença é que algumas pessoas travam batalhas que ninguém vê.

Hoje eu segurei sua mão. Segurei seu choro. E, em silêncio, desejei poder fazer mais. Desejei arrancar dela um pouco da dor, dividir o peso da mochila invisível que ela leva todos os dias.

Porque viver já exige coragem.

Viver enquanto a mente dispara mil pensamentos ao mesmo tempo exige ainda mais.

Para quem convive com a bipolaridade, com a ansiedade, com medos que se multiplicam dentro da própria cabeça, cada dia vencido é uma conquista que quase ninguém aplaude.

É como um código executando dezenas de processos simultaneamente. Informações chegando sem parar. Emoções disputando espaço. Lembranças, preocupações, inseguranças e responsabilidades rodando juntas, sem botão de pausa.

E, mesmo assim, ela continua.

Mesmo quando o mundo parece desabar.

Mesmo quando tudo dentro dela grita para desistir.

Ela continua.

Foi olhando para ela que percebi algo importante: não são os laudos que definem uma pessoa. Não são os diagnósticos. Não são as siglas, os relatórios ou os códigos escritos em um papel.

O que define alguém é a sua capacidade de continuar caminhando quando tudo parece pesado demais.

E ela caminha.

Talvez mais devagar em alguns dias.

Talvez com lágrimas nos olhos em outros.

Mas caminha.

Quando saí da casa dela, percebi que o relógio não seria capaz de medir aquele encontro. O tempo que passei ouvindo nunca será suficiente.

Porque algumas pessoas precisam mais do que remédios.

Precisam de presença.

Precisam de escuta.

Precisam de alguém que as lembre, de vez em quando, daquilo que elas esquecem quando a tempestade chega:

Você é forte.

Muito mais forte do que imagina.

E, enquanto houver um novo amanhecer, ainda existe uma página em branco esperando pela sua história.


domingo, 7 de junho de 2026

Entre nós, os silêncios e o besouro

Há filmes que entretêm.
Há filmes que emocionam.
E há aqueles que deixam uma pedra no sapato.
Entre Nós me deixou uma pedra.
Talvez porque eu o tenha assistido da forma mais real possível: entre interrupções, pedidos de água, discussões infantis sobre quem pegou qual brinquedo e uma verdadeira coreografia com o controle remoto para escapar dos inevitáveis palavrões.
Assistir a um filme depois da maternidade é quase um ato de resistência.
Você nunca está totalmente ali.
E, ainda assim, algumas histórias encontram um jeito de atravessar o caos.
Entre Nós atravessou.
Mesmo com o áudio parecendo conspirar contra a compreensão humana. Mesmo com uma fotografia tão escura que, em certos momentos, eu não sabia se estava vendo um personagem ou a manifestação física de uma crise existencial.
Porque a história não depende apenas do que vemos.
Ela depende do que reconhecemos.
E eu reconheci muita coisa.
O filme fala sobre amizade.
Mas não sobre aquela amizade bonita das fotografias antigas, em que todos parecem felizes e promissores.
Fala da amizade que envelhece.
Da amizade que carrega rachaduras.
Da amizade que sobrevive ao tempo, mas não necessariamente sai ilesa dele.
Um grupo de amigos se reúne. Sonhos, expectativas e frustrações dividem espaço na mesma mesa. E aos poucos percebemos que ninguém saiu exatamente como imaginava quando era jovem.
Quem de nós saiu?
Talvez seja isso que incomode.
A juventude nos convence de que o futuro será grandioso.
A vida passa anos explicando que não.
E então surge o grande golpe da história.
O roubo.
Não apenas de um texto.
Não apenas de uma autoria.
Mas de algo muito maior.
O roubo de uma versão da realidade.
Porque quando alguém se apropria daquilo que você criou, não leva apenas uma ideia.
Leva horas da sua vida.
Leva suas inseguranças.
Leva seus sonhos.
Leva pedaços de quem você era quando escreveu aquilo.
Existem furtos que não deixam portas arrombadas.
Mas deixam pessoas quebradas.
E o mais cruel é perceber que nem sempre quem nos rouba é um estranho.
Às vezes está sentado ao nosso lado.
Às vezes conhece nossos medos.
Às vezes chamamos de amigo.
Foi aí que o filme me fisgou.
Porque a história deixa uma pergunta desconfortável:
Quanto da nossa vida entregamos às pessoas acreditando que elas cuidarão daquilo que somos?
E então aparece o besouro.
De novo.
E de novo.
E mais uma vez.
Pequeno.
Insistente.
Quase irritante.
Enquanto os personagens se afogam em culpas, ressentimentos e versões conflitantes dos fatos, o besouro segue seu caminho indiferente.
Como a vida.
Porque a vida tem essa crueldade silenciosa.
Ela não para para que resolvamos nossas pendências.
Não espera que peçamos desculpas.
Não aguarda reconciliações.
Ela continua.
Dia após dia.
Enquanto carregamos histórias mal resolvidas.
No fim do filme, fiquei pensando menos sobre quem roubou o quê.
E mais sobre o que o tempo roubou de todos eles.
A juventude.
As certezas.
A inocência.
A crença de que amizades verdadeiras são indestrutíveis.
Talvez o verdadeiro ladrão de Entre Nós não seja nenhum personagem.
Talvez seja o próprio tempo.
E talvez o besouro estivesse ali justamente para nos lembrar disso.
Pequeno.
Silencioso.
Persistente.
Como as perdas que acumulamos sem perceber.
Como as pessoas que amamos.
Como as histórias que nunca conseguimos terminar de contar.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Pensando no caminho de volta

A maternidade tem um jeito curioso de mudar a nossa relação com o mundo.

Antes, eu saía de casa e pensava no destino. Hoje, penso no retorno.

Não é medo. Ou talvez seja um pouco. Mas é principalmente responsabilidade.

Quando me tornei mãe, passei a perceber que minha vida deixou de ser apenas minha. Há dois pequenos pares de olhos que me procuram no fim do dia. Dois abraços que correm em minha direção quando escutam o barulho do porta. Duas pessoas que contam comigo para tantas coisas — inclusive para estar aqui amanhã.

Por isso eu coloco o cinto de segurança. Por isso observo a procedência do que consumo. Por isso faço exames, cuido da saúde, tento dormir melhor, me esforço para me alimentar com mais consciência. Não porque sou paranoica. Não porque acredito que posso controlar tudo.

Mas porque aprendi que autocuidado não é vaidade.

É responsabilidade.

Às vezes a rotina é tão corrida que a gente associa cuidado consigo mesma a algo luxuoso: uma tarde livre, uma massagem, um spa, um silêncio impossível. Mas, na vida real, autocuidado quase sempre mora nas pequenas decisões. Está no copo de água que você lembra de beber. Na consulta que finalmente agenda. No treino de cada dia que insiste em fazer mesmo cansada. Na escolha de desacelerar quando o corpo pede socorro.

A verdade é que a vida é um sopro.

E talvez a maternidade nos faça sentir isso de forma ainda mais intensa.

Porque quando temos filhos, entendemos que não somos invencíveis. Percebemos nossa fragilidade. Refletimos sobre riscos que antes passavam despercebidos. E, ao mesmo tempo, descobrimos uma força que não sabíamos que existia.

A força de continuar.

A força de cuidar.

A força de entender que amar alguém também significa cuidar de si mesma.

Porque quem nos espera em casa merece a nossa melhor versão.

E essa melhor versão não é a mais produtiva, a mais perfeita ou a mais forte.

É simplesmente aquela que volta para casa bem.

Todos os dias. Ou pelo menos, na medida do possível.

E, pensando bem, talvez esse seja um dos maiores atos de amor que uma mãe pode oferecer. Não apenas cuidar dos filhos.

Mas cuidar de si para continuar cuidando deles.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Liderança também é colocar roupa na máquina às 23h47

Esses dias fui convidada para palestrar sobre liderança empreendedora.

E achei engraçado. Porque normalmente quando pensamos em liderança imaginamos alguém muito organizada, segura, estrategista, olhando gráficos em uma sala de reunião com iluminação bonita e tempo para tomar café quente.

Enquanto isso, eu estava tentando lembrar:

se respondi um cliente,

se meu filho tinha atividade da escola,

onde deixei minha garrafa de água,

e por que entrei na cozinha mesmo.

A maternidade muda nossa relação com o tempo. E muda também nossa relação com nós mesmas.

Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher dê conta de tudo com elegância. Que trabalhe como se não tivesse filhos. E cuide dos filhos como se não trabalhasse. Que empreenda. Estude. Se cuide. Produza. Apareça. E ainda sorria em fotos espontaneamente felizes às sete da manhã.

Mas a vida real não é assim.

A vida real é estudar Inteligência Artificial enquanto espera a máquina terminar de bater roupa. É responder mensagem de cliente escondida no banheiro porque foi o único lugar silencioso da casa por quatro minutos. É tentar assistir aula enquanto alguém pede água, outro pede abraço e você mesma queria pedir socorro.

E mesmo assim… continuar.

Talvez seja isso que mais me impressiona nas mulheres: a capacidade de construir futuro em ambientes completamente improváveis.

Eu comecei vendendo ebooks, consultoria, mentoria, assessoria. Muito antes de me sentir “empreendedora”. Depois veio a transição de carreira. Voltei a estudar. Entrei na tecnologia. Hoje trabalho com automação, inteligência artificial, impressão 3D…

E no meio disso tudo continuo sendo: mãe, esposa, dona de casa, mulher tentando lembrar onde salvou os próprios sonhos no meio das abas abertas da rotina.

Existe uma romantização da mulher multitarefa. Mas honestamente? Às vezes eu queria ser monotarefa. Uma tarefa só. Pequena. Silenciosa.

Talvez dobrar roupa ouvindo silêncio já fosse um retiro espiritual.

Mas apesar do caos, existe algo bonito acontecendo.

Porque cada vez mais mulheres estão se permitindo recomeçar. Mudar de área. Aprender coisas novas. Ocupar espaços antes considerados distantes demais.

E talvez empoderamento seja menos sobre perfeição… e mais sobre permissão.

Permissão para:

recomeçar tarde,

aprender devagar,

não saber tudo,

ocupar muitos espaços ao mesmo tempo,

existir além de uma única definição.

Outro dia percebi algo curioso: a impressão 3D me encantou porque transforma ideias em objetos reais.

Mas talvez mulheres façam isso o tempo inteiro.

Transformamos: medo em coragem, caos em rotina, cansaço em continuidade, e pequenos sonhos em sobrevivência diária.

Talvez liderança não seja sobre ter controle absoluto da vida.

Talvez liderança seja continuar criando… mesmo cansada.

E sinceramente? Isso já é extraordinário.

terça-feira, 19 de maio de 2026

A vida não pausa, só troca de aba

 Não dá pra respirar.


Ou melhor: até dá.

Mas geralmente é escondida no intervalo entre uma criança gritando “mããããe” no banheiro e a outra perguntando, pela décima quarta vez, onde está um brinquedo que claramente está na frente dela.


Esses dias uma pessoa me disse:


— Você precisa ter seu momento de ócio.


E eu achei curioso.

Porque o conceito de ócio muda muito dependendo da quantidade de pessoas pequenas que moram na sua casa.


Talvez para algumas pessoas o ócio seja um spa.

Para mim, atualmente, talvez seja o descanso entre uma série e outra na academia.


Aliás, se eu fico sentada por exatos quarenta segundos olhando para o nada segurando uma garrafinha d’água… aquilo já conta como retiro espiritual.


Eu sou mãe.

Empreendedora.

Trabalho com impressão 3D.

Voltei a estudar porque decidi fazer transição de carreira para tecnologia no exato momento em que minha vida já parecia suficientemente complicada.


Porque aparentemente eu gosto de emoção.


Então minha rotina funciona mais ou menos assim: uma impressora apitando, uma criança querendo colo, outra querendo um biscoito específico que acabou ontem, um cliente respondendo mensagem às 22h, eu tentando entender algum conceito novo do curso enquanto separo roupa da escola.


Tudo isso com café.

Muito café.


E existe uma coisa curiosa sobre mães empreendedoras que estudam e trabalham em casa: o mundo acha que porque você está em casa, você está disponível.


Não estamos.

Estamos sobrevivendo.

Com elegância duvidosa.

Mas sobrevivendo.

Tem dias em que eu estou resolvendo problema técnico enquanto corto maçã em formato aceitável para uma criança de quase cinco anos que acabou de decidir que maçãs redondas são ofensivas.

E sinceramente?

Acho lindo quando alguém fala:

— Você precisa desacelerar.

Claro.

Excelente ideia.

Vou colocar isso na minha lista logo abaixo de: “não esquecer a reunião”, “tirar filamento da impressora”, “lavar uniforme”, “estudar LangChain”, “ser emocionalmente equilibrada”, e “beber água”.

Ah.

E agora também:

“lembrar de enviar o artigo no prazo”.

Porque no meio dessa gestão altamente sofisticada da vida adulta, eu simplesmente esqueci do prazo.

O artigo estava lá.

Praticamente pronto.

Mas entre tarefas domésticas, filhos, treino, empreendedorismo, estudos, impressão 3D, notificações e o pequeno circo operacional que é manter uma casa funcionando… o prazo passou.

E sabe o pior?

Eu ainda fiquei me culpando como se tivesse falhado exclusivamente por incompetência.

Como se não existissem 47 abas abertas simultaneamente na minha cabeça todos os dias.


A maternidade real é muito diferente daquela estética de internet.

Ninguém mostra o caos da manhã.

A negociação diplomática para colocar uma roupa.

O treino sendo feito no único horário possível porque desistir completamente de si mesma também não parece uma opção saudável.


E ainda assim… existem pequenos luxos.

O café quente raríssimo.

Uma peça impressa perfeita.

O silêncio de cinco minutos dentro do carro.

O treino concluído.

Os filhos dormindo.

A sensação de perceber que, apesar da correria absurda, você está construindo uma nova versão da própria vida.


No meio da bagunça.

No meio do barulho.

No meio dos brinquedos espalhados pela casa.


Então talvez eu realmente tenha momentos de ócio.

Eles só duram aproximadamente o tempo de um descanso entre séries.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Quando a pergunta dói mais que o diagnóstico

Diagnóstico: catarata congênita.

A palavra chega seca. Técnica. Mas o efeito não é técnico. É visceral.

E então vem a pergunta — quase automática, quase acusatória:

“Você nunca havia levado a um oftalmologista?”

Sim.

Nael tem 6 anos.

Ele é acompanhado por pediatra.

E já foi, pelo menos, três vezes ao oftalmologista.

E é aqui que algo quebra.

Porque a catarata congênita, por definição, está presente desde o nascimento.

Então a pergunta que não cala não é a que fazem para mim.

É a que eu faço para o sistema:

como isso não foi visto antes?

Não é simples. Não é confortável. E não cabe em respostas rápidas.

Há condições que podem ser sutis em fases iniciais, que evoluem, que escapam a triagens de rotina. Mas, ainda assim, o sentimento que fica é de falha. Não necessariamente de uma pessoa específica — e sim de um conjunto de camadas: consultas breves, exames limitados, sinais que passam despercebidos.

E o resultado é este:

um diagnóstico que chega tarde demais para ser tranquilo.

É revoltante.

Revoltante não só pelo que aconteceu, mas pelo que isso representa. A confiança que a gente deposita — e precisa depositar — em quem cuida. A crença de que, fazendo o básico, comparecendo às consultas, seguindo orientações, estamos protegendo nossos filhos.

Mas a realidade não é linear.

Existe uma lacuna entre o que esperamos e o que de fato acontece na prática médica. Uma lacuna feita de pressa, de limitações estruturais, de variabilidade clínica. E, às vezes, de erro.

E quando essa lacuna toca um filho, ela pesa.

Pesa porque a rotina já é exaustiva.

Pesa porque você faz o que está ao seu alcance.

Pesa porque, mesmo assim, algo importante pode passar.

E, ainda assim, você segue.

Segue acreditando nas pessoas — não por ingenuidade, mas por necessidade. Porque cuidar também exige confiar. Exige continuar levando, perguntando, insistindo.

Agora há um plano concreto:

Nael precisará de cirurgia o quanto antes.

Isso reorganiza tudo.

A prioridade muda. A urgência se impõe. E o foco deixa de ser o passado — embora ele ainda incomode — para se concentrar no que precisa ser feito agora.

Mas é impossível ignorar o aprendizado duro que fica:

não basta cumprir a rotina.

é preciso questionar a rotina.

Perguntar mais.

Pedir explicações.

Buscar segundas opiniões quando algo não fecha.

Não como desconfiança permanente — isso seria inviável —, mas como postura ativa diante do cuidado.

A revolta existe. E é legítima.

Mas ela precisa ser canalizada.

Para ação.

Para vigilância.

Para garantir que, daqui para frente, nada mais passe despercebido.

Porque, no fim, entre o que falhou e o que ainda pode ser feito, existe um ponto de controle:

o próximo passo.

E ele já está sendo dado.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Quando a vida nos tira da órbita

 

Tem situações que nos tiram do eixo.

E tem aquelas que fazem mais do que isso — nos arrancam completamente da nossa órbita.

Quem tem filho entende.

Existe um tipo de medo que nasce junto com a maternidade. Ele não grita o tempo todo, mas está ali, em estado de vigília. Qualquer sinal de alerta — uma dor, um exame, uma dúvida médica — e tudo se amplifica. O mundo lá fora, que já é cheio de riscos, parece ainda mais imprevisível quando atravessa quem a gente ama.

Ontem foi um desses dias.

Um dia em que a frustração não veio sozinha. Veio acompanhada de cansaço, de indignação, de uma sensação incômoda de vulnerabilidade. O plano de saúde falhou — e quando algo que deveria cuidar não cumpre seu papel, o impacto é maior do que parece. Não é só burocracia. É medo. É urgência. É o sentimento de estar desassistida em um momento em que não se pode falhar.

Eu reclamei. Fiz questão de ser ouvida.

Mas, curiosamente, não foi isso que mais ficou.

Hoje, o que permanece é uma percepção mais silenciosa — e mais forte: eu sou mais resistente do que às vezes consigo lembrar.

A rotina cansa.

Cansa ao ponto de apagar evidências de quem a gente é.

Entre dar conta de tudo, equilibrar responsabilidades e lidar com pequenas urgências diárias, existe um esquecimento sutil: o da própria força. Como se viver no automático fosse, aos poucos, apagando a consciência daquilo que já superamos.

E então vem um dia como ontem.

Um dia que desorganiza, tensiona, exige resposta.

E, no meio disso tudo, algo se revela: você continua.

Mesmo sem diagnóstico fechado.

Mesmo com incerteza.

Mesmo com medo.

Nael agora será acompanhado por um oftalmologista pediatra. Ainda não há respostas claras. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis — lidar com o “não saber”.

A maternidade tem disso.

Ela nos coloca diante de situações que não controlamos, mas nos exige ação mesmo assim. Não dá para esperar ter todas as respostas para começar a cuidar. A gente cuida no meio da dúvida.

E isso é exaustivo.

Existe uma romantização perigosa sobre ser mãe. Como se fosse apenas amor leve, intuitivo, bonito. Mas há também tensão, desgaste, preocupação constante. Há dias em que o coração aperta mais do que deveria.

E está tudo bem reconhecer isso.

Porque a força não está em não sentir.

Está em seguir apesar de sentir.

Hoje eu me sinto mais tranquila — não porque tudo está resolvido, mas porque estamos fazendo o que precisa ser feito. Existe um caminho. Existe movimento. Existe cuidado.

E, no fim, talvez seja isso que sustenta tudo:

não é a certeza, é a continuidade.

Um passo de cada vez.

Uma decisão de cada vez.

Um cuidado de cada vez.

Se a vida, às vezes, nos tira da órbita, também é verdade que aprendemos — com o tempo — a nos reorganizar no espaço.

Não como antes.

Mas mais conscientes da força que carregamos.

E isso, por si só, já muda tudo.

quarta-feira, 8 de abril de 2026

A pressa que não mede

 


Há dias em que tudo parece caber em poucas horas. E mesmo assim, ao final, fica a sensação de que algo escapou — um detalhe, uma tarefa, um cuidado que poderia ter sido melhor.

A frase se repete quase como um reflexo: “o dia passou voando”. Mas o que realmente passou? O tempo — ou a nossa capacidade de estar presente nele?

Vivemos em um ritmo que valoriza o acúmulo. Fazer muito virou sinônimo de fazer bem. Conciliar tudo virou prova de competência. E, silenciosamente, fomos aceitando que excelência significa dar conta de tudo — sempre.

Mas quem definiu isso?

A cobrança constante não nasce apenas das tarefas. Ela nasce da ideia de que existe um equilíbrio perfeito, uma balança invisível onde todas as áreas da vida devem estar ajustadas, simétricas, sob controle. Como se fosse possível distribuir energia de forma exata entre trabalho, estudo, família, projetos e ainda sobrar tranquilidade.

Na prática, essa balança não existe.

O que existe são escolhas — muitas vezes sobrepostas, às vezes conflitantes. Escolher avançar em uma área quase sempre significa ceder em outra. E isso não é falha. É estrutura da própria vida.

A culpa, então, não vem do que deixamos de fazer. Vem da expectativa de que não deveríamos deixar nada para trás.

Talvez a questão não seja fazer tudo bem feito. Talvez seja entender que “bem feito”, em certos momentos, significa apenas seguir — mesmo com imperfeições, mesmo com limites.

Porque há uma diferença sutil, mas decisiva: viver com propósito não é o mesmo que viver em constante desempenho.

E se o tempo passa rápido, talvez não seja apenas porque estamos ocupados — mas porque estamos sempre tentando alcançar um padrão que nunca se sustenta.

No fim, a pergunta muda: não é mais “como equilibrar tudo?”, mas “o que realmente importa sustentar agora?”.

E aceitar que, em algumas fases, fazer o suficiente já é, na verdade, fazer muito.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Pausa

 

A casa em ordem — ou quase. A faculdade em dia — ou dentro do possível. A lista de tarefas riscada com aquele prazer discreto de quem venceu pequenas batalhas invisíveis. E, ainda assim, o corpo pede trégua.

A gripe chega sem pedir licença, como quem lembra que existe um limite. Não para o mundo, não para os prazos — mas para mim.

Algumas gotas de melatonina. Um gesto simples, quase um acordo silencioso comigo mesma. Não é desistência. É cuidado.

O quarto vai se apagando aos poucos, como se acompanhasse esse pedido de pausa. Luz nenhuma. Som nenhum. Só o peso leve de um dia que já deu o que tinha que dar.

Puxo o lençol sobre o rosto — esse abrigo improvisado, íntimo, quase infantil. Ali embaixo, o mundo diminui. As cobranças perdem volume. As expectativas ficam do lado de fora.

E então vem a parte mais difícil: tentar dormir sem culpa.

Sem pensar no que ainda falta. No que poderia ter sido feito melhor. No que ficou para amanhã. Dormir sem negociar comigo mesma, sem justificar o descanso como se ele precisasse ser merecido.

Hoje, não.

Hoje, eu me permito parar.

Porque existe uma coragem silenciosa em reconhecer o próprio cansaço. E uma força ainda maior em aceitar que nem tudo precisa ser concluído — algumas coisas precisam apenas ser deixadas.

Inclusive eu.

Por algumas horas, no escuro, sob um lençol, tentando lembrar que descansar também é uma forma de continuar.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Eles estão aprendendo… e me ensinando

 

Durante o jantar, Nael me perguntou:

— “Mamãe, como foi seu dia?”

Eu demorei a entender.

Não pela pergunta.

Mas pelo gesto.

Fiquei surpresa.

Aquele cuidado… vindo de um menino tão pequeno.

Toquei no braço dele e respondi com o coração cheio:

— “Obrigada, meu amor, por me perguntar.”

E contei: foi um dia bom. Fiz várias coisas.

Naeli, logo em seguida, me olhou e completou:

— “Você está cansada, mamãe?”

E ali… eu desmontei por dentro.

Porque, no meio da correria, das tarefas, da vida acontecendo em velocidade alta…

eles estavam me vendo.

Não como quem resolve tudo.

Mas como alguém que também sente.

A gente acha que está ensinando o tempo todo.

Mas, às vezes, são eles que mostram o que realmente importa:

cuidar, perguntar, perceber.

Talvez eu esteja fazendo algo certo.

Ou talvez…

o amor esteja fazendo o trabalho por mim.


segunda-feira, 9 de março de 2026

O "dia da mulher"

Todo o meu respeito às pessoas que preferem não dizer “feliz Dia da Mulher”.

Há quem entenda que não se trata de comemoração, mas de memória, luta e denúncia de desigualdades que ainda atravessam a vida de tantas mulheres. Essa leitura é legítima.

Mas também confesso que, entre nós, mulheres, desejar um “feliz dia” pode ter outro significado. Não é ingenuidade. É reconhecimento. É afeto. É um gesto de quem sabe exatamente o que a outra enfrenta.

Porque, sejamos honestas: há algo profundamente incoerente quando o desejo de “feliz Dia da Mulher” vem de quem, no cotidiano, não pratica o mínimo de respeito às mulheres. Quando a mensagem é bonita, mas as atitudes continuam reproduzindo silenciamento, desvalorização ou desrespeito.

Talvez por isso muitas mulheres prefiram desejar umas às outras.

Não como exclusão de gêneros — mas como reconhecimento entre quem compartilha experiências semelhantes. Entre quem sabe o peso e a potência de ser mulher em uma sociedade que ainda nos exige provar, todos os dias, nosso valor.

O Dia da Mulher pode ser celebração, reflexão ou denúncia.

Mas, acima de tudo, precisa ser coerência.

Porque mais importante do que dizer “feliz Dia da Mulher” é viver todos os dias com respeito às mulheres.

terça-feira, 3 de março de 2026

Mulheres, tecnologia e coragem: não é sobre ocupar espaço, é sobre transformar

 Início de mais um ano letivo.

Mais um semestre na tecnologia da informação.

Mais uma oportunidade de atravessar territórios que, historicamente, não foram pensados para nós.

Ao me deparar com um mural que homenageia mulheres formadas no IMD, uma frase ecoou em mim:

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

E eu pensei: quantas vezes tentaram nos definir?

A mulher sensível demais.

A mulher emocional demais.

A mulher que “talvez não tenha perfil para exatas”.

A mulher que deveria escolher algo “mais compatível”.

A mulher que precisa provar duas vezes o que o homem prova uma.

A tecnologia ainda carrega desigualdades estruturais.

Os números mostram a baixa representatividade feminina em cursos de computação, engenharia e áreas técnicas. Mas o problema não é capacidade. Nunca foi.

O problema sempre foi acesso, incentivo e permanência.

Quantas meninas ouviram, ainda na infância, que “isso não é coisa de menina”?

Quantas desistiram antes mesmo de tentar?

Quantas continuam, mas silenciosamente duvidando se pertencem?

Eu estou em transição. Sou assistente social, mãe, empreendedora, estudante de TI. Estou reaprendendo linguagens, lógica, códigos e algoritmos. E não é fácil. Mas também não é impossível.

A questão nunca foi se somos capazes.

A questão é se estamos dispostas a enfrentar o desconforto.

A Inteligência Artificial, por exemplo, não é neutra. Ela carrega vieses, reproduz desigualdades, amplia invisibilidades quando não é construída com diversidade. E é justamente por isso que precisamos estar nesses espaços.

Precisamos de mulheres desenvolvendo sistemas.

Projetando soluções.

Pensando ética.

Questionando padrões.

Criando tecnologia que considere pessoas reais.

Não se trata apenas de ocupar cadeiras.

Trata-se de influenciar decisões.

A cada novo projeto que inicio, a cada código que tento entender, a cada erro que enfrento, eu escolho continuar. Não por vaidade. Mas por convicção.

Porque tecnologia é poder.

E mulheres precisam estar onde o poder é construído.

Também é preciso coragem para aprender. Coragem para errar publicamente. Coragem para não dominar tudo imediatamente. Coragem para não ser a melhor da sala, mas ainda assim permanecer.

E, acima de tudo, coragem para não se sujeitar.

Que nada nos defina.

Que nada nos limite.

Que nada nos silencie.

Que possamos inspirar meninas não apenas com discursos, mas com presença.

Que possamos dizer às mulheres que é possível recomeçar aos 30, aos 40, aos 50.

Que possamos transformar tecnologia em ferramenta de inclusão, e não de exclusão.

Este novo semestre não é apenas sobre disciplinas e avaliações.

É sobre identidade.

É sobre ocupar espaços com consciência.

É sobre fazer o melhor que posso com IA — com ética, com propósito e com humanidade.

E talvez seja isso o verdadeiro empoderamento:

não esperar permissão para existir onde sempre tivemos o direito de estar.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Do desgaste ao renascimento


Ontem fui ao ortopedista.

Dois anos depois da minha cirurgia de coluna — aquela que aliviou a dor que descia pela perna — recebo um novo recado da vida: discopatia degenerativa. Aquele nome difícil que o médico disse com voz calma, explicando que é um processo de desgaste dos discos intervertebrais, que acontece com o tempo quando eles perdem elasticidade e amortecimento. Não foi uma sentença, só uma constatação: o disco pode continuar desgastando — ou não — e isso é parte do funcionamento da coluna ao longo da vida. 

Ele explicou como quem explica o clima: “Isso é comum, não é uma doença mágica, é desgaste natural.” E eu entendi. Porque a vida também desgasta — mas também nos fortalece.

Eu sou a prova disso.

Durante esses dois anos eu subi e desci escadas, cuidei de dois filhos pequenos que precisam do meu colo, do meu abraço e da minha disposição para correr, pular, brincar de pega-pega até cansar os ossos. Eu mudei hábitos: eliminei peso, perdi 17kg, reformei minha alimentação e incorporei atividade física regular. Eu encontrei tempo para cuidar de mim — não por vaidade, mas por amor.

Cuidar do corpo virou prioridade porque eu descobri que minha coluna não é um apêndice descartável, é a base da vida em movimento. E é ali, no meio dessa rotina acelerada de maternidade, trabalho, estudos e expectativas, que a gente aprende que a força não é algo que simplesmente nasce com você — ela se constrói.

Engraçado pensar que a mesma coluna que um dia chorou de dor agora me sustenta enquanto eu levanto pesos, escrevo textos, corro atrás dos meus filhos e abraço cada novo dia com intenção. Foi preciso aceitar que alguns discos podem sofrer desgaste, mas meu propósito continua firme — e eu continuo firme com ele.

Ser mãe é encomendar uma rotina que ninguém ensina: é fazer questão de estar ali quando eles chamam “mamãe, vem brincar!”, mesmo depois de um dia cansativo. É rir nas brincadeiras de carrinho, lego, corrida e esconde-esconde. É continuar mesmo quando a auto cobrança bate porta adentro — porque amar é insistir no cuidado diário.

Ao sair do consultório, eu não sai abalada. Saí consciente.

Consciente de que saúde é construção. Que bem-estar é escolha.

Que estar presente para quem depende de mim exige esforço — mas é um esforço que vale, sempre.

E então penso: se o meu corpo sabe envelhecer com dignidade, se meus hábitos hoje me guardam, se minha coluna não me define — então o que define é o que eu faço com tudo isso:

eu continuo. Eu cuido. Eu caminho.

Porque superar não é ignorar a condição.

É ajustar passos, fortalecer músculos e escolher viver bem.

E se antes a doença era um obstáculo, hoje ela é só parte da paisagem que me retrata como alguém que sabe cuidar, sabe amar, sabe superar.

E quiçá esse seja o melhor jeito de viver: com firmeza, com gentileza, com gratidão — mesmo quando o caminho pede mais de nós.