A casa em ordem — ou quase. A faculdade em dia — ou dentro do possível. A lista de tarefas riscada com aquele prazer discreto de quem venceu pequenas batalhas invisíveis. E, ainda assim, o corpo pede trégua.
A gripe chega sem pedir licença, como quem lembra que existe um limite. Não para o mundo, não para os prazos — mas para mim.
Algumas gotas de melatonina. Um gesto simples, quase um acordo silencioso comigo mesma. Não é desistência. É cuidado.
O quarto vai se apagando aos poucos, como se acompanhasse esse pedido de pausa. Luz nenhuma. Som nenhum. Só o peso leve de um dia que já deu o que tinha que dar.
Puxo o lençol sobre o rosto — esse abrigo improvisado, íntimo, quase infantil. Ali embaixo, o mundo diminui. As cobranças perdem volume. As expectativas ficam do lado de fora.
E então vem a parte mais difícil: tentar dormir sem culpa.
Sem pensar no que ainda falta. No que poderia ter sido feito melhor. No que ficou para amanhã. Dormir sem negociar comigo mesma, sem justificar o descanso como se ele precisasse ser merecido.
Hoje, não.
Hoje, eu me permito parar.
Porque existe uma coragem silenciosa em reconhecer o próprio cansaço. E uma força ainda maior em aceitar que nem tudo precisa ser concluído — algumas coisas precisam apenas ser deixadas.
Inclusive eu.
Por algumas horas, no escuro, sob um lençol, tentando lembrar que descansar também é uma forma de continuar.
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