quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O sol é para todos

 


Há dias em que acordo com uma inquietação que não cabe no café.

Uma sensação de que merecíamos mais.

Mais respeito. Mais justiça. Mais humanidade.

Às vezes teimamos em querer mais da vida como quem pede sobremesa depois de um prato mal servido. E não é ganância. É sede de dignidade. É olhar para a desigualdade que escorre pelas ruas, para a injustiça que veste terno e fala bonito, para o desrespeito às leis por aqueles que as escrevem — e pensar: não era para ser assim.

Já passou pela sua cabeça a vontade de estar em um lugar melhor?

Um país que valorize as pessoas antes dos cargos?

Onde política não seja palco de vaidades, mas instrumento de cuidado?

Política para quem, afinal? Para manter privilégios ou para proteger vidas?

A palavra “merecer” é perigosa.

Porque quando a gente começa a pensar que merece mais, começa também a enxergar o quanto tem sido pouco.

Mas, curiosamente, foi meu filho quem me trouxe de volta à terra firme.

Essa noite, sem contexto, sem pedido, sem intenção escondida, ele me olhou e disse algo bonito. Um elogio gratuito. Não queria brinquedo. Não queria colo extra. Não queria negociar horário. Apenas disse.

E eu fiquei ali, desmontada.

A sabedoria das crianças é quase ofensiva de tão simples.

Elas não elogiam por interesse. Não medem palavras por cálculo político. Não distribuem carinho conforme vantagem. Elas dizem porque sentem.

E ali, naquele quarto, longe das discussões sobre país, justiça e futuro, eu entendi algo fundamental: o sol é para todos.

O sol não escolhe partido.

Não distingue classe.

Não verifica currículo.

Ele nasce e ilumina igualmente o palácio e a periferia.

Talvez o problema não seja o sol.

Talvez seja o que fazemos com a luz.

Queremos um país melhor — mas começamos como?

Queremos menos desigualdade — mas tratamos quem está ao nosso lado com dignidade?

Queremos líderes humanos — mas exercemos humanidade dentro de casa?

Meu filho, com sua inocência desarmada, me lembrou que a mudança começa no gesto gratuito. No elogio que não espera retorno. No amor que não exige aplauso.

Amor é político, sim.

Mas não no sentido partidário.

É político porque transforma relações.

É político porque redistribui poder.

É político porque escolhe cuidar ao invés de competir.

Talvez mereçamos mais.

Mas talvez também precisemos ser mais.

Mais gentis.

Mais firmes.

Mais conscientes.

Queremos duas melhores versões de país?

Então precisamos duas melhores versões de nós mesmos.

E, no meio de tanta revolta legítima, de tanto cansaço coletivo, eu me agarro a essa verdade pequena e enorme ao mesmo tempo:

se uma criança consegue elogiar sem interesse, amar sem cálculo e confiar sem desconfiança, ainda há esperança.

O sol é para todos.

Mas a humanidade… essa a gente precisa escolher todos os dias.