terça-feira, 26 de maio de 2026

Liderança também é colocar roupa na máquina às 23h47

Esses dias fui convidada para palestrar sobre liderança empreendedora.

E achei engraçado. Porque normalmente quando pensamos em liderança imaginamos alguém muito organizada, segura, estrategista, olhando gráficos em uma sala de reunião com iluminação bonita e tempo para tomar café quente.

Enquanto isso, eu estava tentando lembrar:

se respondi um cliente,

se meu filho tinha atividade da escola,

onde deixei minha garrafa de água,

e por que entrei na cozinha mesmo.

A maternidade muda nossa relação com o tempo. E muda também nossa relação com nós mesmas.

Existe uma expectativa silenciosa de que a mulher dê conta de tudo com elegância. Que trabalhe como se não tivesse filhos. E cuide dos filhos como se não trabalhasse. Que empreenda. Estude. Se cuide. Produza. Apareça. E ainda sorria em fotos espontaneamente felizes às sete da manhã.

Mas a vida real não é assim.

A vida real é estudar Inteligência Artificial enquanto espera a máquina terminar de bater roupa. É responder mensagem de cliente escondida no banheiro porque foi o único lugar silencioso da casa por quatro minutos. É tentar assistir aula enquanto alguém pede água, outro pede abraço e você mesma queria pedir socorro.

E mesmo assim… continuar.

Talvez seja isso que mais me impressiona nas mulheres: a capacidade de construir futuro em ambientes completamente improváveis.

Eu comecei vendendo ebooks, consultoria, mentoria, assessoria. Muito antes de me sentir “empreendedora”. Depois veio a transição de carreira. Voltei a estudar. Entrei na tecnologia. Hoje trabalho com automação, inteligência artificial, impressão 3D…

E no meio disso tudo continuo sendo: mãe, esposa, dona de casa, mulher tentando lembrar onde salvou os próprios sonhos no meio das abas abertas da rotina.

Existe uma romantização da mulher multitarefa. Mas honestamente? Às vezes eu queria ser monotarefa. Uma tarefa só. Pequena. Silenciosa.

Talvez dobrar roupa ouvindo silêncio já fosse um retiro espiritual.

Mas apesar do caos, existe algo bonito acontecendo.

Porque cada vez mais mulheres estão se permitindo recomeçar. Mudar de área. Aprender coisas novas. Ocupar espaços antes considerados distantes demais.

E talvez empoderamento seja menos sobre perfeição… e mais sobre permissão.

Permissão para:

recomeçar tarde,

aprender devagar,

não saber tudo,

ocupar muitos espaços ao mesmo tempo,

existir além de uma única definição.

Outro dia percebi algo curioso: a impressão 3D me encantou porque transforma ideias em objetos reais.

Mas talvez mulheres façam isso o tempo inteiro.

Transformamos: medo em coragem, caos em rotina, cansaço em continuidade, e pequenos sonhos em sobrevivência diária.

Talvez liderança não seja sobre ter controle absoluto da vida.

Talvez liderança seja continuar criando… mesmo cansada.

E sinceramente? Isso já é extraordinário.

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