quinta-feira, 11 de junho de 2026

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

A beleza, as espinhas e os hormônios que comandam o espetáculo

Se existe uma coisa que aprendi convivendo com meu próprio corpo é que os hormônios são roteiristas criativos.

Muito criativos.

Tem dias em que você acorda se sentindo uma verdadeira deusa. O cabelo coopera. A pele brilha. O olhar parece mais vivo. A autoestima aparece sem esforço. Você passa pelo espelho e pensa:

"Olha só... quem é essa mulher?"

É quase uma versão cinematográfica de nós mesmas.

Mas os hormônios gostam de emoção.

Porque poucos dias depois, sem qualquer aviso prévio, surge ela.

A espinha.

Não uma espinha discreta e educada.

Uma espinha estratégica.

Daquelas que escolhem exatamente o centro do rosto para se manifestar.

E ela aparece acompanhada de amigas.

Porque aparentemente nenhuma delas gosta de ficar sozinha.

É curioso como o mesmo organismo capaz de nos dar aquela pele iluminada também consegue produzir uma pequena cadeia de montanhas na região do queixo em questão de horas.

E nós observamos tudo isso tentando manter a compostura.

A retenção de líquido chega.

As roupas mudam de comportamento.

O humor fica mais sensível.

A ansiedade faz visitas inesperadas.

As espinhas aparecem.

E ainda assim esperamos de nós mesmas a mesma performance, a mesma produtividade e a mesma disposição de todos os outros dias.

Como se nada estivesse acontecendo.

Mas está.

Existe uma dança hormonal acontecendo o tempo inteiro.

Uma coreografia silenciosa que influencia nossa energia, nosso sono, nossa fome, nossa pele, nosso humor e até a forma como enxergamos a nós mesmas.

O mais injusto é que, às vezes, olhamos uma foto antiga e pensamos:

"Nossa, eu estava tão bonita ali."

Quando, naquele dia da foto, provavelmente estávamos reclamando da barriga, da espinha, do cabelo ou de qualquer outro detalhe que ninguém além de nós percebia.

Porque mulheres têm esse talento estranho de enxergar defeitos com uma precisão científica.

Mas talvez a beleza esteja justamente nisso.

Na mulher que floresce.

Na mulher que descansa.

Na mulher que se sente linda.

Na mulher que acorda inchada.

Na mulher da pele perfeita.

Na mulher que está lutando contra uma invasão hormonal no queixo.

Porque nenhuma dessas versões é menos mulher.

Nenhuma delas é menos bonita.

São apenas capítulos diferentes da mesma história.

Uma história escrita por ciclos.

E talvez a maior maturidade seja entender que nem toda fase foi feita para florescer.

Algumas foram feitas para recolher.

Outras para recomeçar.

E todas elas, até aquelas acompanhadas de espinhas inesperadas e uma vontade irracional de comer chocolate às dez da manhã, fazem parte da beleza extraordinária de ser mulher.

terça-feira, 9 de junho de 2026

O peso que não aparece


Enquanto você escuta alguém, sua cabeça voa?

A minha costuma voar.

Pensa na lista do mercado, no prazo que está acabando, na roupa para dobrar, na mensagem que ainda preciso responder. O corpo está presente, mas a mente, muitas vezes, atravessa continentes.

Mas hoje não.

Hoje eu estive inteira.

Sentei diante dela e, por algumas horas, o mundo parou. Não existia celular. Não existia relógio. Não existiam tarefas urgentes. Existia apenas uma mulher tentando sobreviver ao peso que carrega.

E como ela carrega.

São muitos problemas. Mas quem não tem os seus?

A diferença é que algumas pessoas travam batalhas que ninguém vê.

Hoje eu segurei sua mão. Segurei seu choro. E, em silêncio, desejei poder fazer mais. Desejei arrancar dela um pouco da dor, dividir o peso da mochila invisível que ela leva todos os dias.

Porque viver já exige coragem.

Viver enquanto a mente dispara mil pensamentos ao mesmo tempo exige ainda mais.

Para quem convive com a bipolaridade, com a ansiedade, com medos que se multiplicam dentro da própria cabeça, cada dia vencido é uma conquista que quase ninguém aplaude.

É como um código executando dezenas de processos simultaneamente. Informações chegando sem parar. Emoções disputando espaço. Lembranças, preocupações, inseguranças e responsabilidades rodando juntas, sem botão de pausa.

E, mesmo assim, ela continua.

Mesmo quando o mundo parece desabar.

Mesmo quando tudo dentro dela grita para desistir.

Ela continua.

Foi olhando para ela que percebi algo importante: não são os laudos que definem uma pessoa. Não são os diagnósticos. Não são as siglas, os relatórios ou os códigos escritos em um papel.

O que define alguém é a sua capacidade de continuar caminhando quando tudo parece pesado demais.

E ela caminha.

Talvez mais devagar em alguns dias.

Talvez com lágrimas nos olhos em outros.

Mas caminha.

Quando saí da casa dela, percebi que o relógio não seria capaz de medir aquele encontro. O tempo que passei ouvindo nunca será suficiente.

Porque algumas pessoas precisam mais do que remédios.

Precisam de presença.

Precisam de escuta.

Precisam de alguém que as lembre, de vez em quando, daquilo que elas esquecem quando a tempestade chega:

Você é forte.

Muito mais forte do que imagina.

E, enquanto houver um novo amanhecer, ainda existe uma página em branco esperando pela sua história.


domingo, 7 de junho de 2026

Entre nós, os silêncios e o besouro

Há filmes que entretêm.
Há filmes que emocionam.
E há aqueles que deixam uma pedra no sapato.
Entre Nós me deixou uma pedra.
Talvez porque eu o tenha assistido da forma mais real possível: entre interrupções, pedidos de água, discussões infantis sobre quem pegou qual brinquedo e uma verdadeira coreografia com o controle remoto para escapar dos inevitáveis palavrões.
Assistir a um filme depois da maternidade é quase um ato de resistência.
Você nunca está totalmente ali.
E, ainda assim, algumas histórias encontram um jeito de atravessar o caos.
Entre Nós atravessou.
Mesmo com o áudio parecendo conspirar contra a compreensão humana. Mesmo com uma fotografia tão escura que, em certos momentos, eu não sabia se estava vendo um personagem ou a manifestação física de uma crise existencial.
Porque a história não depende apenas do que vemos.
Ela depende do que reconhecemos.
E eu reconheci muita coisa.
O filme fala sobre amizade.
Mas não sobre aquela amizade bonita das fotografias antigas, em que todos parecem felizes e promissores.
Fala da amizade que envelhece.
Da amizade que carrega rachaduras.
Da amizade que sobrevive ao tempo, mas não necessariamente sai ilesa dele.
Um grupo de amigos se reúne. Sonhos, expectativas e frustrações dividem espaço na mesma mesa. E aos poucos percebemos que ninguém saiu exatamente como imaginava quando era jovem.
Quem de nós saiu?
Talvez seja isso que incomode.
A juventude nos convence de que o futuro será grandioso.
A vida passa anos explicando que não.
E então surge o grande golpe da história.
O roubo.
Não apenas de um texto.
Não apenas de uma autoria.
Mas de algo muito maior.
O roubo de uma versão da realidade.
Porque quando alguém se apropria daquilo que você criou, não leva apenas uma ideia.
Leva horas da sua vida.
Leva suas inseguranças.
Leva seus sonhos.
Leva pedaços de quem você era quando escreveu aquilo.
Existem furtos que não deixam portas arrombadas.
Mas deixam pessoas quebradas.
E o mais cruel é perceber que nem sempre quem nos rouba é um estranho.
Às vezes está sentado ao nosso lado.
Às vezes conhece nossos medos.
Às vezes chamamos de amigo.
Foi aí que o filme me fisgou.
Porque a história deixa uma pergunta desconfortável:
Quanto da nossa vida entregamos às pessoas acreditando que elas cuidarão daquilo que somos?
E então aparece o besouro.
De novo.
E de novo.
E mais uma vez.
Pequeno.
Insistente.
Quase irritante.
Enquanto os personagens se afogam em culpas, ressentimentos e versões conflitantes dos fatos, o besouro segue seu caminho indiferente.
Como a vida.
Porque a vida tem essa crueldade silenciosa.
Ela não para para que resolvamos nossas pendências.
Não espera que peçamos desculpas.
Não aguarda reconciliações.
Ela continua.
Dia após dia.
Enquanto carregamos histórias mal resolvidas.
No fim do filme, fiquei pensando menos sobre quem roubou o quê.
E mais sobre o que o tempo roubou de todos eles.
A juventude.
As certezas.
A inocência.
A crença de que amizades verdadeiras são indestrutíveis.
Talvez o verdadeiro ladrão de Entre Nós não seja nenhum personagem.
Talvez seja o próprio tempo.
E talvez o besouro estivesse ali justamente para nos lembrar disso.
Pequeno.
Silencioso.
Persistente.
Como as perdas que acumulamos sem perceber.
Como as pessoas que amamos.
Como as histórias que nunca conseguimos terminar de contar.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Pensando no caminho de volta

A maternidade tem um jeito curioso de mudar a nossa relação com o mundo.

Antes, eu saía de casa e pensava no destino. Hoje, penso no retorno.

Não é medo. Ou talvez seja um pouco. Mas é principalmente responsabilidade.

Quando me tornei mãe, passei a perceber que minha vida deixou de ser apenas minha. Há dois pequenos pares de olhos que me procuram no fim do dia. Dois abraços que correm em minha direção quando escutam o barulho do porta. Duas pessoas que contam comigo para tantas coisas — inclusive para estar aqui amanhã.

Por isso eu coloco o cinto de segurança. Por isso observo a procedência do que consumo. Por isso faço exames, cuido da saúde, tento dormir melhor, me esforço para me alimentar com mais consciência. Não porque sou paranoica. Não porque acredito que posso controlar tudo.

Mas porque aprendi que autocuidado não é vaidade.

É responsabilidade.

Às vezes a rotina é tão corrida que a gente associa cuidado consigo mesma a algo luxuoso: uma tarde livre, uma massagem, um spa, um silêncio impossível. Mas, na vida real, autocuidado quase sempre mora nas pequenas decisões. Está no copo de água que você lembra de beber. Na consulta que finalmente agenda. No treino de cada dia que insiste em fazer mesmo cansada. Na escolha de desacelerar quando o corpo pede socorro.

A verdade é que a vida é um sopro.

E talvez a maternidade nos faça sentir isso de forma ainda mais intensa.

Porque quando temos filhos, entendemos que não somos invencíveis. Percebemos nossa fragilidade. Refletimos sobre riscos que antes passavam despercebidos. E, ao mesmo tempo, descobrimos uma força que não sabíamos que existia.

A força de continuar.

A força de cuidar.

A força de entender que amar alguém também significa cuidar de si mesma.

Porque quem nos espera em casa merece a nossa melhor versão.

E essa melhor versão não é a mais produtiva, a mais perfeita ou a mais forte.

É simplesmente aquela que volta para casa bem.

Todos os dias. Ou pelo menos, na medida do possível.

E, pensando bem, talvez esse seja um dos maiores atos de amor que uma mãe pode oferecer. Não apenas cuidar dos filhos.

Mas cuidar de si para continuar cuidando deles.