Meu pai nunca foi exatamente um homem de grandes declarações.
Não me lembro de discursos emocionados, conversas intermináveis sobre sentimentos ou dessas cenas bonitas de filme em que pai e filha resolvem a vida inteira sentados na varanda.
Também, convenhamos, eu provavelmente ficaria preocupada se ele começasse agora.
— Pai, está tudo bem? O senhor quer me contar alguma coisa?
Mas havia Roberto Carlos aos domingos.
E hoje eu desconfio que aquilo queria dizer alguma coisa.
Talvez algumas pessoas tenham aprendido a dizer “eu te amo” com palavras. Outras colocavam uma música para tocar, aumentavam um pouquinho o volume e continuavam fazendo o que estavam fazendo como se não fosse absolutamente nada.
Meu pai é dessa geração.
A geração dos homens que demonstravam amor verificando se tinha comida em casa, se estava tudo certo, se ninguém estava fazendo alguma grande besteira — e, principalmente, ensinando muito bem a diferença entre o certo e o errado.
Essa parte, aliás, ele ensinou com bastante eficiência.
Meu pai sempre teve uma espécie de bússola moral muito própria.
O certo era certo.
O errado era errado.
E recurso da decisão?
Não me lembro de haver essa possibilidade.
Hoje acho graça.
Porque o tempo tem essa capacidade maravilhosa de mudar o lugar de onde observamos as coisas.
Quando somos crianças, enxergamos apenas o pai.
Depois crescemos e começamos a enxergar também o homem.
E eu passei a compreender melhor de onde ele veio.
Meu pai pertence a uma geração em que demonstrar amor não era necessariamente abraçar, conversar ou dizer.
Era fazer.
Era trabalhar.
Era providenciar.
Era cuidar para que não faltasse.
Era colocar Roberto Carlos para cantar no domingo e deixar que ele dissesse algumas coisas que talvez fossem difíceis demais para um homem daquela geração colocar em palavras.
E quer saber?
Talvez tenha funcionado.
Porque hoje nós cuidamos um do outro.
Do nosso jeito.
Não viramos subitamente aquelas pessoas que terminam toda ligação dizendo “eu te amo” quinze vezes. Seria uma mudança brusca demais para esta família e não queremos assustar ninguém.
Mas existe cuidado.
Existe presença.
Existe uma intimidade que talvez não precise ser explicada.
E existe algo muito bonito em chegar à vida adulta e perceber que nossos pais também tiveram uma história antes de nós.
Eles também aprenderam a amar do jeito que alguém lhes ensinou.
E fizeram o que puderam com aquilo que receberam.
Hoje eu consigo reconhecer muitas coisas que, quando menina, não sabia nomear.
Talvez aquele prato na mesa dissesse alguma coisa.
Talvez aquela preocupação disfarçada dissesse alguma coisa.
Talvez cada ensinamento sobre o certo e o errado dissesse alguma coisa.
E talvez Roberto Carlos, cantando pela casa num domingo qualquer, estivesse dizendo por ele:
“Eu estou aqui.”
Hoje também estou, pai.
E acho bonito saber que, depois de tantos anos, continuamos cuidando um do outro — cada um à sua maneira.
Sem precisar de grandes discursos.
Embora, ironicamente, eu tenha acabado de escrever um.
Feliz Dia dos Pais, pai.
E pode colocar Roberto Carlos.
Agora eu entendo.

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