terça-feira, 26 de agosto de 2025

Crônica – Forte e Corajosa


“Seja forte e corajosa.”

Essa frase sempre ecoou em mim como um lembrete. Não daqueles escritos em post-it colorido na parede, mas como um chamado silencioso que me acompanha nas decisões mais difíceis da vida.


Lembro quando comecei a pensar em ter filhos. Ouvia que eu não aguentaria. Como se a dor do parto fosse um obstáculo intransponível, quase uma sentença de fraqueza. Mas eu já sabia que dor nenhuma me define, e quando a maternidade chegou, encarei com coragem o que diziam ser impossível.

Foi só depois, já com meus dois pequenos de 4 e 2 anos, que a vida me apresentou outro desafio: a doença da coluna. E ali, a dor ganhou um peso diferente — não era só minha. Era a dor de precisar recusar o colo que eles pediam, de não poder correr atrás, brincar como antes. Era a dor de olhar para eles e dizer “não posso” quando tudo em mim queria dizer “vem”. Vieram meses de fisioterapia, remédios, procedimentos, noites sem dormir. Até que chegou a cirurgia — e com ela, o processo lento, exigente, mas libertador da cura.

Por isso, quando alguém dizia que eu não aguentaria certas dores, eu sorria por dentro. Porque quem já passou pela maternidade e depois enfrentou uma cirurgia de coluna com duas crianças pequenas pedindo por você… sabe que pode enfrentar o que vier.

Depois, veio a outra grande escolha: pausar a carreira para estudar algo novo. Quantos me disseram que era arriscado, imprudente até. Mas quem disse que coragem é ausência de risco? Coragem é justamente isso: dar o passo no escuro porque se confia que lá na frente haverá luz. E, se não houver, a gente acende uma vela.

Não falo de oportunidades fáceis, de portas que se abrem sozinhas. Eu sei — com todas as letras — que elas não caem do céu. Oportunidade é degrau. É subida lenta, cheia de tropeços. É escada que parece não ter fim. E é no suor das mãos, no fôlego que falta e nos “não” que se recebe, que se constrói a chance de seguir.

Hoje, ao olhar para trás, vejo que não foi a dor que me definiu, mas a coragem de enfrentá-la. Não foram as pausas que me enfraqueceram, mas a ousadia de recomeçar.

E, se há algo que eu aprendi, é que ser forte não é nunca vacilar — é continuar mesmo quando se vacila. Ser corajosa não é nunca ter medo — é andar com ele no bolso e não deixá-lo ditar os passos.


Por isso, sigo repetindo para mim mesma, como um mantra:

seja forte e corajosa.

Porque é assim que a vida vale a pena ser vivida.


domingo, 10 de agosto de 2025

Crônica – O que aprendi com meu pai


Hoje é Dia dos Pais.

E, mais do que um presente ou uma data no calendário, é um daqueles dias em que a gente percebe o quanto as lembranças carregam peso e leveza ao mesmo tempo.

O que eu aprendi com meu pai não cabe em um presente, nem em um discurso pronto. São ensinamentos que vieram aos poucos, misturados com o jeito dele de viver — às vezes silencioso, às vezes firme, às vezes com aquele humor meio disfarçado que só quem conhece entende.

Aprendi que responsabilidade não é peso, é compromisso. Que palavra dada vale mais do que qualquer papel assinado. Que respeito se conquista no dia a dia, e não na força. Que cuidar dos outros é tão importante quanto cuidar de si.


Nos dias bons, ele me mostrou que alegria mora nas coisas simples: um almoço em família, uma conversa na varanda, um conselho dado no momento certo. Nos dias difíceis, me ensinou que a vida exige coragem — e que nem sempre precisamos falar muito para sermos presença.

Meu pai não me ensinou só a andar, mas a caminhar com propósito. Não me mostrou só o que é certo ou errado, mas como encontrar meu próprio caminho sem esquecer de onde eu vim.

Hoje, como adulta, percebo que muito do que sou nasceu da paciência, da firmeza e do amor silencioso dele. E se um dia eu for capaz de transmitir aos meus filhos metade do que aprendi com ele, já vou me considerar vitoriosa.


Feliz Dia dos Pais, pai.

O senhor é, e sempre será, minha maior referência de força, honestidade e amor que não precisa de palavras para ser sentido. 


terça-feira, 5 de agosto de 2025

Treinar é preciso, gostar é lucro

Olha, eu confesso: eu era daquelas que só entrava na academia por obrigação médica. Não por estética, não por vaidade, não por endorfina — por COLUNA mesmo. Hérnia de disco, dor lombar, fisioterapeuta no cangote e uma receitinha de “musculação leve” que eu, honestamente, achava que fosse código pra “vá passar vergonha com os pesos de 2kg”.


E eu fui. Meio arrastada, meio indignada. Já na matrícula, disseram: “Vamos te deixar nova!”. Eu só pensei: “Nova? Nova eu era antes de parir dois filhos, antes de carregar mochilas, crianças e o peso da existência!”. Mas fui.


Aí vieram os treinos... e o ódio de cada agachamento. O instrutor todo empolgado: “Bora ativar esse glúteo!”. E eu só queria ativar o botão de sair correndo. Mas não podia — a coluna, lembra? Eu era a mulher do “pela saúde”.


Só que algo mudou.

Aos poucos, descobri o poder de um pré-treino, gente. Aquele pozinho que te deixa elétrica, com vontade de limpar a casa, treinar e fazer TCC tudo na mesma tarde. Descobri o magnésio, que me deu sono. Descobri a melatonina, que me deu sonhos. Descobri que, com a suplementação certa, eu podia virar a versão da Beyoncé de mim mesma, mesmo que só dentro da academia.


Agora? Agora eu gosto do treino.

Não sou marombeira, mas fico chateada se não sinto dor muscular no dia seguinte. É tipo: “Ué, não vai doer o glúteo? Não fiz direito então!”. Já estou naquela fase que olha o próprio bíceps e diz “olha, está surgindo hein?”. E nem ligo se ninguém vê, eu vejo, e isso basta.


Hoje, sou mãe de dois, passei dos 30, e olha... o tempo não é mais meu aliado. Então separei um pedaço dele pra mim. Pro meu corpo. Pro meu humor. Porque, além da coluna, quem agradece é minha sanidade.


E se alguém me perguntar “você treina por quê?”, já aviso:

“Comecei pela dor. Fiquei pelo drama. Continuei pelo prazer de ver minha nova versão — suada, cansada, mas feliz.” 

E que venha o próximo treino.

Com pré-treino, playlist empolgante e, claro, aquela pose no espelho que ninguém precisa ver, mas eu? Eu aplaudo!


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Quando as palavras não têm mais toque

O amor não termina gritando. Nem quebrando porta. Nem com alguém saindo de mala na mão e drama no corredor.


O amor termina no silêncio.


Termina quando as palavras ainda existem — mas perderam o tato.

Já não tocam, não arrepiam, não fazem falta quando não vêm.


O amor acaba assim, meio sem aviso.

De repente o “bom dia” vira rotina, o “cheguei” não importa.

E o “te amo”? Ah, esse vira concessão.

Vira vírgula entre tarefas, protocolo, vício de quem não quer encarar o vácuo de um “nada mais a dizer”.


Porque o amor, de verdade, precisa de corpo nas palavras.

Precisa de mãos que falem. De olhos que escutem.

De frases que encostem como abraço.

O amor não sobrevive só de som. Tem que ter pele, cheiro, riso entre as linhas.


E quando a gente começa a responder no automático, quando um “tá” já substitui um “tô aqui contigo”,

quando a mensagem é só mensagem e não mais presença,

é porque o amor…

foi embora e esqueceu de fechar a porta.

O amor não morre de repente.

Ele morre aos poucos, sem alarde.

Morre de tédio, de ausência, de toque que não vem,

de palavras que não sabem mais tocar.


E aí, não adianta gritar.

Porque já não tem ninguém pra escutar.


quinta-feira, 24 de julho de 2025

Por que eu não falo de política

Não é desinteresse. Não é alienação.

Eu leio. Eu escuto. Eu observo tudo com atenção. Mas não falo.

Talvez seja defesa. Talvez cansaço. Talvez seja só uma memória — das muitas vezes em que vi meu pai, homem simples, honesto até os ossos, se exaltar diante de injustiças que pareciam imutáveis. Vi a política tirar o brilho dos olhos dele. Vi a revolta consumir seus domingos. Vi o nó na garganta diante da corrupção que parecia vencer sempre.


Então, cresci entendendo que falar de política doía. E mais do que isso: muitas vezes, não adiantava. Porque nem todo mundo queria escutar — só vencer a discussão.

E eu… eu cansei das lutas que não levam a lugar algum.


É um defeito? Talvez seja.

Talvez seja medo de me consumir por dentro.

Ou só uma escolha de paz.

Não é omissão, é um limite que tracei.

Eu leio, me informo, voto com consciência. Mas não dou palco à raiva.

Não quero que ela me molde.

Então eu escuto.

Porque tem gente que ainda precisa colocar pra fora.

E tudo bem.

Eu só escolhi guardar em silêncio o que em mim ainda grita.



sexta-feira, 18 de julho de 2025

Quando vocês crescerem

Filhos, se um dia encontrarem esse texto, talvez em um caderno velho, em uma pasta perdida do computador, ou em algum cantinho do meu blog, saibam: escrevi com o coração cheio e os olhos um pouco marejados.

Hoje vocês ainda são pequenos — Nael com suas descobertas encantadas, suas perguntas que exigem do mundo mais do que simples respostas, e Naeli com sua doçura de quem brinca de boneca sendo, ao mesmo tempo, uma tempestade de imaginação e ternura.

Vocês me chamam o tempo todo. Chamam pra ver um desenho, pra contar uma história pela metade, pra mostrar um desenho mal recortado ou uma dancinha nova. Chamam quando o brinquedo quebra, quando querem o meu braço pra dormir, quando um precisa da minha atenção e o outro já está agarrado em mim. Eu vivo em um constante "vem aqui, mamãe", e isso, meus filhos, é o som mais bonito da minha rotina.

Talvez, quando forem grandes, achem que mamãe era cansada demais, distraída em alguns momentos ou até ranzinza em outros. E é verdade, às vezes eu estava exausta. Tentando ser estudante, profissional, esposa, dona de casa e mãe — tudo ao mesmo tempo. Mas também é verdade que cada sorriso de vocês me empurrava para frente. Cada abraço, mesmo os mais grudados e suados, eram combustível.

Quando crescerem, talvez nem se lembrem do quanto brigaram pelo meu colo, das vezes em que adormeceram aos meus pés enquanto eu ainda digitava ou estudava. Talvez não lembrem que eu comia o que sobrava, que trocava um banho tranquilo por um banho corrido entre brinquedos espalhados pelo chão. Mas tudo bem. Porque isso é o amor de uma mãe: dar, sem cobrança. Ser, sem medida.

Espero que, quando forem grandes, carreguem com vocês a leveza de terem sido amados sem limites. Que saibam que toda a correria teve um propósito. E que se, um dia, a vida parecer dura demais, vocês se lembrem que vieram do afeto, do riso fácil, do “tudo bem chorar”, do “eu tô aqui, filho”.

Se forem ler isso em um momento de dúvida, insegurança ou saudade… fechem os olhos por um instante. Imaginem minha voz dizendo o que sempre disse: “Mamãe está fazendo tum-tum aqui dentro do seu peito”.


E estará. Sempre.


Com todo amor do mundo,

Mamãe.