terça-feira, 29 de setembro de 2026

Tchau, menininho



Estamos no final de setembro.


Nael está aprendendo uma coisa nova: enxergar o mundo de outro jeito.


Depois da cirurgia de catarata, vieram os óculos. Agora virá também o tampão, três horas por dia. E, a cada três meses, voltaremos ao médico para acompanhar sua visão, seu desenvolvimento, sua adaptação.


Para uma criança, tudo isso se traduz em perguntas.


Para uma mãe, também.


Hoje saímos de mais uma consulta. Mas a maior lição daquele dia não aconteceu dentro do consultório.


No prédio, encontramos uma jovem cega.


Ela estava sozinha.


Com o celular nas mãos, acompanhava atentamente um aplicativo de viagem porque aguardava um motociclista que estava trazendo uma pasta com documentos seus.


Em determinado momento, perguntou se poderíamos ajudá-la.


Primeiro, queria saber se a moto havia chegado.


Depois, precisava encontrar um segurança que pudesse acompanhá-la até a clínica.


E Nael observava tudo.


Como toda criança, não havia constrangimento em sua curiosidade. Havia perguntas.


— Por que ela não enxerga?


Depois reparou na bengala.


Rosa.


Porque, aparentemente, até uma bengala pode precisar ter personalidade.


Então vieram outras:


— Por que ela está sozinha?


— Como ela vai subir?


— Como ela vai pegar o elevador?


— Como ela vai chegar ao médico?


Eu percebi que, enquanto perguntava sobre aquela moça, Nael tentava organizar dentro de si algo muito maior.


Ele está vivendo, talvez pela primeira vez, a consciência de que enxergar nem sempre é uma coisa simples.


Há poucas semanas, visão era apenas visão.


Agora existem cirurgia, óculos, tampão, consultas e acompanhamento.


Existe um olho que precisa ser estimulado.


Existe cuidado.


Existe tempo.


E existe também o vovô.


Nael logo fez a associação com o avô, que convive com a retinose pigmentar e está perdendo grande parte da visão.


Talvez, naquele pequeno espaço entre a recepção e o elevador, algumas peças tenham começado a se encaixar na cabeça dele.


A moça não enxergava.


O vovô quase não enxerga.


Ele precisou operar os olhos.


Mas aquela jovem estava ali.


Sozinha.


Com seu celular.


Chamando sua viagem.


Esperando seus documentos.


Indo ao médico.


Pedindo ajuda quando precisava.


Seguindo a vida.


E talvez essa tenha sido a parte mais bonita da lição.


Ela precisava de ajuda, sim.


Mas isso não significava que fosse incapaz.


Há uma diferença enorme entre as duas coisas — e nós, adultos, às vezes demoramos uma vida inteira para aprender.


Nael quis saber como ela conseguiria fazer tudo aquilo sem enxergar.


E eu fiquei pensando que talvez a pergunta pudesse ser outra:


quantas coisas uma pessoa aprende a fazer quando o mundo não funciona exatamente como ela gostaria?


Hoje eu poderia ter saído daquela consulta pensando apenas nas três horas de tampão por dia.


Nos óculos.


Na próxima avaliação daqui a três meses.


No olho que precisamos cuidar.


No futuro.


Coisas de mãe.


Mas saí pensando também naquela bengala rosa.


Naquela jovem seguindo para sua consulta.


No meu pai.


E no meu filho olhando tudo aquilo com a curiosidade de quem ainda não aprendeu a fingir que não vê.


Encontramos o segurança. Ela seguiria seu caminho e nós seguiríamos o nosso.


Antes de ir, ela se despediu:


— Tchau.


E então completou:


— Tchau, menininho.


Nael respondeu.


E aquilo ficou comigo.


Ela não tinha visto seus olhos curiosos. Não tinha visto seu rosto acompanhando cada movimento. Não tinha visto a expressão daquele menino tentando compreender como alguém que não enxergava poderia usar o celular, buscar documentos, pegar um elevador e chegar sozinha a uma consulta.


Mas ela sabia que ele estava ali.


E, de algum modo, também o tinha percebido.


Talvez eu esteja preocupada em ensinar Nael a cuidar dos olhos.


Mas hoje a vida tratou de ensinar a nós dois outra coisa:


enxergar é muito maior do que ver.


E aquele simples “tchau, menininho” talvez tenha sido a maneira mais bonita de nos lembrar disso.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Quem escreveu esse roteiro?

 Há uma culpa estranha em mudar de ideia.


Como se, em algum momento da vida, tivéssemos assinado um contrato com a pessoa que fomos aos vinte, aos vinte e cinco, aos trinta anos. Como se aquela versão nossa tivesse o direito de decidir, para sempre, quem seríamos.


Você disse que queria.


Você contou para todo mundo.


Fez planos. Estabeleceu metas. Comprou agenda. Criou planilha. Talvez tenha até escrito em algum lugar: daqui a cinco anos estarei...


E então não está.


Pior: talvez já nem queira estar.


É aí que começa o julgamento.


Às vezes, dos outros. Mas quase sempre de nós mesmos.


Chamamos de desistência aquilo que talvez seja apenas mudança. Chamamos de falta de foco aquilo que pode ser lucidez. Dizemos que saímos do trilho sem sequer perguntar quem colocou aquele trilho ali.


Porque existe um roteiro silencioso para a vida.


Estude. Trabalhe. Cresça. Case. Tenha filhos. Compre uma casa. Tenha estabilidade. Escolha uma profissão — e, por favor, comporte-se como se uma escolha feita aos dezoito anos precisasse fazer sentido aos quarenta.


Não volte.


Não recomece.


Não pare.


Não decepcione.


Principalmente: não mude demais.


Só que a vida muda demais.


As pessoas que encontramos mudam alguma coisa em nós. As perdas mudam. Os filhos mudam. O dinheiro muda. A falta dele também. Um amor muda. O fim de um amor muda. Uma doença muda. Uma terça-feira aparentemente comum pode mudar.


E nós insistimos em exigir que os sonhos permaneçam intactos.


Mas por quê?


O curso de um rio muda o tempo inteiro.


Ele encontra uma pedra e contorna. Encontra um desnível e cai. Em alguns lugares, corre depressa. Em outros, quase parece parado. Há épocas em que transborda. Há épocas em que mal consegue seguir.


E ninguém olha para o rio e diz:


— Que falta de constância.


O rio continua sendo rio.


Talvez nós também.


Talvez você possa ter desejado profundamente alguma coisa e, ainda assim, não desejá-la mais.


Isso não torna o desejo antigo uma mentira.


Você quis.


Naquele tempo, com aquilo que sabia, com as experiências que tinha e sendo a pessoa que era, você quis.


E foi verdadeiro.


Mas você viveu desde então.


Aprendeu coisas que não sabia. Conheceu lados seus que ainda não conhecia. Descobriu preços que não sabia que teria de pagar. Talvez tenha chegado perto daquele sonho e percebido que, visto de perto, ele não era tão bonito.


Há sonhos que realizamos.


Há sonhos que adiamos.


E há sonhos dos quais precisamos ter coragem de nos despedir.


Sem transformar despedida em fracasso.


Talvez uma das formas mais cruéis de autopunição seja obrigar a pessoa que somos hoje a cumprir promessas feitas por alguém que já não existe.


Só para não parecer incoerente.


Só porque os outros estavam olhando.


Só porque "já investi muito".


Só porque "sempre disse que faria".


Só porque mudar agora parece admitir que erramos.


Mas nem toda mudança nasce de um erro.


Às vezes, nasce justamente do aprendizado.


Metas são importantes. Objetivos são importantes. Planejar é importante.


Mas nenhum planejamento deveria se transformar numa prisão.


O plano existe para servir à vida.


Não o contrário.


E talvez amadurecer seja perceber que constância não significa caminhar eternamente na mesma direção.


Às vezes, constância é continuar procurando uma vida que faça sentido — ainda que o endereço dessa vida mude algumas vezes pelo caminho.


Você pode mudar de profissão.


Pode mudar de cidade.


Pode mudar a empresa que queria construir.


Pode descobrir que aquela promoção não vale mais o preço.


Pode perceber que sucesso significa outra coisa agora.


Pode abandonar um projeto.


Pode começar novamente.


Pode querer menos.


Pode querer mais.


Pode simplesmente querer diferente.


E não precisa produzir uma defesa de cinquenta páginas para justificar isso.


Nem toda mudança precisa de culpado.


Nem todo caminho interrompido foi desperdício.


Há estradas que existem apenas para nos ensinar que não queremos chegar ao destino delas.


Então, se você percebeu que está saindo do roteiro, talvez não precise correr de volta.


Olhe em volta.


Pergunte quem escreveu esse roteiro.


Pergunte se aquela meta ainda é sua.


Pergunte se você está insistindo porque deseja continuar ou porque tem medo de explicar por que parou.


Depois siga.


Mesmo que seja para outro lado.


O rio faz isso há milhões de anos.


Encontra pedras, muda o curso, abre caminhos inesperados e continua.


Sem culpa.


Sem pedir licença.


Sem pedir desculpas por não chegar ao mar exatamente pelo caminho que havia imaginado.