segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A casa que um dia vai caber tudo


Hoje eu comecei a organizar a casa às 9h40 da manhã.

Eu sei porque, depois de certa idade, a gente não limpa mais a casa. A gente registra o horário de entrada no turno.

Às 9h40 eu era uma mulher otimista.

Às 13h eu estava almoçando, exausta, olhando ao redor e rindo sozinha.

Não era felicidade. Também não era surto.

Era provavelmente aquele estágio intermediário que só uma mãe tentando organizar um apartamento pequeno conhece.

Porque aqui em casa temos um problema matemático: quatro pessoas, duas crianças pequenas, uma quantidade de brinquedos aparentemente incompatível com as leis da física e, porque evidentemente faltava emoção, uma pequena operação de impressão 3D funcionando num canto da sala.

Marie Kondo jamais esteve preparada para isso.

Eu gosto de organização. Gosto de olhar para um lugar e encontrar espaço. Um pedacinho vazio. Uma superfície sem nada em cima.

Hoje considero isso praticamente um artigo de luxo.

Porque onde olho há evidências de que crianças moram aqui.

Carrinhos.

Pelúcias.

Livros.

Bicicleta.

Bonecas.

Brinquedos que fazem barulho.

Brinquedos que ninguém usa há seis meses, mas que adquirem enorme valor sentimental no exato segundo em que você pergunta:

— Podemos doar?

Não.

Podemos vender?

Também não.

Podemos pelo menos conversar sobre este dinossauro sem uma perna?

NÃO. ELE É MEU.

Semana passada, meu filho concordou em separar alguns brinquedos e bichos de pelúcia para um bazar.

Achei que estávamos vivendo um momento de amadurecimento.

Ele começou a selecionar.

Tirava um:

— Esse fica.

Outro:

— Esse também.

Mais um:

— Esse eu gosto.

Ao final do processo, descobri que meu filho é um excelente defensor da propriedade privada.

Não saía praticamente nada.

Hoje resolvi fazer a seleção sem a presença do departamento jurídico infantil. Os quebrados foram embora. Alguns esquecidos entraram para doação. Outros sobreviveram ao processo.

E continuei tentando fazer uma coisa muito simples:

criar espaço.

Foi quando aconteceu.

No meio daquela operação logística, olhando para todos aqueles brinquedos coloridos, pensei:

Daqui a cinco, dez anos, isso não vai estar aqui.

E ri.

Mas ri emocionada.

Porque, pela primeira vez naquela manhã, olhei para a bagunça não como algo que precisava desaparecer, mas como algo que vai desaparecer.

Sem que eu precise fazer absolutamente nada.

Um dia não haverá bicicleta pequena encostada onde não deveria.

Não haverá cesto transbordando de brinquedos.

Não haverá pelúcia que ninguém usa, mas ninguém permite doar.

Talvez eu finalmente tenha aquela casa organizada que tanto quero.

E essa possibilidade, que deveria soar maravilhosa, de repente pareceu um pouco ofensiva.

Porque eu percebi que estou vivendo uma fase que me esgota e, ao mesmo tempo, já começou a acabar.

É muito injusto.

A maternidade poderia pelo menos escolher um lado.

Ou você me dá uma casa organizada e filhos crescidos, ou me dá o caos e a garantia de que eles continuarão pequenos.

As duas coisas juntas são emocionalmente desonestas.

E então veio a árvore de Natal.

Porque, evidentemente, enquanto eu travava uma crise existencial sobre a passagem do tempo, meus filhos estavam preocupados com questões realmente importantes:

quando vamos montar a árvore?

Estamos em outubro.

Outubro.

Mas criança não reconhece calendário. Criança identifica sinais.

Apareceu um Papai Noel numa loja?

Natal.

Panetone no supermercado?

Natal.

Piscou uma luz?

Natal.

Portanto, agora eu tenho outro problema: encontrar espaço para uma árvore de Natal numa casa onde eu passei a manhã inteira tentando encontrar espaço para as coisas que já moram aqui.

Olhei um canto.

Brinquedos.

Outro.

Brinquedos.

Quarto deles?

Mais brinquedos.

Pensei em mandar os brinquedos da sala para o quarto e descobri que o quarto já opera acima da capacidade regulamentar.

Finalmente encontrei um cantinho perto da mesa.

Talvez caiba.

Uma árvore mais magrinha, claro.

Uma árvore slim.

Porque até a árvore de Natal desta família precisará entender a realidade imobiliária brasileira.

E acho que vou colocá-la ali.

Mesmo sendo outubro.

Mesmo ocupando mais um pouco do pouco espaço que temos.

Porque hoje entendi uma coisa enquanto tentava desesperadamente fazer a casa parecer maior:

ela não está pequena porque falta espaço.

Ela está cheia porque tem gente vivendo nela.

Tem duas crianças crescendo.

Tem brinquedos sendo espalhados.

Tem uma bicicleta pequena.

Tem impressora trabalhando.

Tem projetos acontecendo.

Tem almoço pela metade na mesa.

Tem uma mãe cansada tentando organizar tudo e reclamando que não cabe mais nada.

E tem uma árvore de Natal prestes a aparecer dois meses antes do razoável.

Um dia, provavelmente, vai caber tudo.

A sala ficará mais silenciosa.

Os brinquedos desaparecerão.

Os cestos irão embora.

Talvez eu tenha exatamente os espaços vazios que hoje procuro com tanta insistência.

E desconfio que vou olhar para eles e pensar:

Nossa. Como essa casa era cheia.

E não estarei falando dos brinquedos.