Fazer aniversário é uma coisa curiosa.
Quando a gente é criança, conta quantos anos está fazendo. Depois dos trinta, aparentemente, a gente começa a contar o que sobreviveu aos anos.
E eu vou fazer 33.
Trinta e três.
Uma idade suficientemente adulta para eu já ter aprendido muita coisa e suficientemente jovem para continuar fazendo algumas escolhas questionáveis e chamando de “experiência”.
Essa última semana tenho pensado muito no saldo.
Não naquele saldo bancário — esse eu prefiro consultar em horário comercial e emocionalmente acompanhada.
Falo do outro.
O saldo da vida.
Quem ficou.
Quem foi.
Quem eu precisei deixar ir.
Quem permaneceu quando permanecer deixou de ser conveniente.
E, principalmente, quem eu me tornei depois de tudo isso.
Porque aconteceu muita coisa.
Eu fiquei forte.
Não aquela força bonita de frase motivacional, com pôr do sol ao fundo e uma mulher olhando para o horizonte.
Fiquei forte do jeito menos cinematográfico possível.
Fiquei forte porque algumas vezes simplesmente não havia outra opção.
Adoeci.
E talvez poucas coisas reorganizem tanto nossas prioridades quanto perceber que o corpo também sabe dizer “chega”. Às vezes ele diz baixinho. Às vezes manda um memorando. Às vezes convoca uma reunião extraordinária com todos os órgãos e informa:
— Minha querida, nós precisamos conversar.
Eu mudei hábitos.
Alguns por escolha. Outros porque a vida praticamente me pegou pelos ombros e disse: “Agora você vai aprender a se cuidar.”
Aprendi que autocuidado não é necessariamente uma banheira cheia de espuma, velas aromáticas e uma taça de vinho estrategicamente posicionada.
Às vezes autocuidado é dormir.
É treinar.
É dizer não.
É parar.
É voltar.
É entender que o corpo onde eu moro precisa durar o tempo suficiente para viver tudo aquilo que minha cabeça ainda inventa.
Minha família cresceu.
E, curiosamente, quanto mais gente chegou, mais o amor pareceu encontrar espaço.
A casa ficou mais barulhenta.
A rotina, mais caótica.
As preocupações, maiores.
O silêncio virou artigo de luxo.
Mas o amor…
O amor aumentou.
E descobri uma coisa bonita nesses anos: amor de verdade não elimina as dificuldades. Ele apenas faz com que algumas delas valham a pena.
E dificuldades vieram.
Ah, vieram.
Algumas bateram na porta.
Outras aparentemente tinham cópia da chave.
Algumas passaram rapidamente. Outras sentaram no sofá, abriram a geladeira e pareciam não ter nenhuma intenção de ir embora.
Mas foram.
Ou eu passei por elas.
Talvez seja isso que chamamos de superar: não necessariamente vencer de forma triunfal, mas olhar para trás e perceber que aquilo que parecia enorme agora cabe dentro de uma lembrança.
Eu evoluí.
E também regredi.
Sim.
Porque uma das maiores mentiras que contamos sobre amadurecer é imaginar que evolução seja uma escada.
Não é.
É mais parecido com andar pela casa no escuro procurando o interruptor: você avança, bate o dedinho em algum móvel, xinga discretamente, volta dois passos, encontra uma parede que jurava não estar ali e, eventualmente, acha a luz.
Cresci em algumas áreas.
Em outras, ainda estou aprendendo coisas que achei que já soubesse.
Mudei de opinião.
Mudei de planos.
Mudei de profissão.
Fiz transição de carreira.
Comecei caminhos que anos atrás talvez nem conseguisse imaginar.
E precisei aceitar que mudar de direção não significa necessariamente ter escolhido errado antes. Às vezes aquela estrada simplesmente nos trouxe até onde precisava.
Talvez o maior presente de chegar aos 33 seja esse: eu já não preciso que todas as versões anteriores de mim façam sentido.
Algumas fizeram o melhor que podiam.
Algumas foram corajosas.
Algumas foram medrosas.
Algumas aceitaram menos do que mereciam.
Algumas acreditaram demais.
Outras desconfiaram de tudo.
Algumas estavam completamente perdidas enquanto diziam para todo mundo:
— Está tudo sob controle.
Não estava.
Mas veja só.
Chegamos até aqui.
E quando penso nos que ficam, percebo que o tempo é um excelente editor.
Ele corta excessos.
Reescreve relações.
Apaga algumas certezas.
Mantém algumas pessoas.
E revela outras.
Aos 33, começo a entender que quantidade nunca foi sinônimo de pertencimento.
Há gente que passa anos ao nosso lado e nunca verdadeiramente fica.
E há quem, mesmo distante, tenha um lugar permanente dentro da nossa história.
Hoje valorizo os que ficam quando não há festa.
Os que perguntam e esperam a resposta.
Os que conhecem minhas versões menos interessantes. Os que não precisam que eu esteja forte o tempo inteiro. Os que comemoram minhas conquistas sem transformá-las em competição. Os que sentam à mesa da minha vida sem precisar diminuir ninguém para ocupar espaço.
Esse é um saldo bonito.
Não perfeito.
Bonito.
Porque também perdi.
Errei.
Me decepcionei.
Decepcionei pessoas.
Tive medo.
Voltei atrás.
Insisti quando deveria ter ido embora e fui embora de lugares onde talvez pudesse ter ficado mais um pouco.
Mas viver também é isso.
Não existe maturidade sem algum constrangimento retrospectivo.
Se você olha para dez anos atrás e concorda absolutamente com tudo que fez, talvez tenhamos um problema.
Eu olho e penso:
— Meu Deus, mulher.
E depois penso:
— Mas obrigada.
Porque foi ela que me trouxe até aqui.
Então não quero chegar aos 33 fazendo uma lista apenas das minhas vitórias.
Quero chegar inteira.
Com as cicatrizes.
Com as mudanças.
Com as pessoas que ficaram.
Com os hábitos que precisei reconstruir.
Com os sonhos que ainda não realizei.
Com os que abandonei.
Com os novos que apareceram pelo caminho.
Com a família que cresceu.
Com o amor que aumentou.
Com a mulher que adoeceu e precisou aprender a cuidar de si.
Com a profissional que teve coragem de mudar.
Com a mulher que avançou muito em algumas coisas e ainda tropeça magnificamente em outras.
Porque talvez amadurecer não seja finalmente ter todas as respostas.
Talvez seja parar de ter vergonha das perguntas.
Daqui a pouco faço 33.
Não chego onde imaginei que estaria.
Chego em um lugar que, sinceramente, acho muito mais interessante: chego em mim.
Mais consciente de quem sou.
Mais cuidadosa com quem deixo ficar.
Mais seletiva com aquilo que merece minha energia.
Mais grata pelo amor que construí.
Mais respeitosa com meu corpo.
Mais desconfiada das urgências.
Mais apaixonada pelas pequenas vitórias que ninguém aplaude.
Ainda intensa.
Ainda sonhadora.
Ainda querendo fazer umas quinze coisas ao mesmo tempo e, aparentemente, acreditando que o dia possui umas 37 horas.
Algumas características são patrimônio histórico e não podem mais ser demolidas.
Mas estou aqui.
Depois de tudo.
Não intacta.
Transformada.
E talvez esse seja o melhor saldo que uma mulher possa carregar para um novo ano de vida: não ter passado ilesa pelo tempo.
Ter permitido que ele a ensinasse.
Que venham os 33.
Eu ainda não sei exatamente o que eles vão trazer.
Mas, considerando tudo o que já atravessei, tenho uma certeza: essa mulher que chega até eles conhece melhor a própria força.
E, finalmente, sabe que não precisa provar isso o tempo inteiro.

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