Não. Não é sobre política.
É sobre dignidade.
É sobre o direito de olhar para o que acontece ao nosso redor e dizer: isso não está certo.
Nos ensinaram que viver em sociedade exige deveres. E eu concordo. Trabalhamos. Pagamos impostos. Cumprimos leis. Respeitamos regras. Acreditamos que esse pacto faz sentido porque, do outro lado, deveria existir um Estado comprometido em devolver à população aquilo que arrecada.
Mas e quando esse compromisso parece falhar?
Quando a carga tributária cresce, enquanto a sensação de insegurança permanece. Quando hospitais lotam, escolas enfrentam dificuldades, estradas se deterioram e tantos brasileiros sentem que precisam pagar duas vezes: uma pelos impostos e outra pelos serviços que deveriam receber. Em 2025, a carga tributária brasileira atingiu 32,4% do PIB, o maior nível da série histórica recente divulgada pelo Tesouro Nacional.
Não se trata de negar a importância dos tributos.
Uma sociedade justa depende deles.
O problema nunca foi contribuir. O problema é contribuir e, ainda assim, sentir que falta o essencial.
A Constituição Federal não foi escrita apenas para impor obrigações ao cidadão. Ela também estabeleceu deveres para o Estado. Entre eles, promover o bem comum, garantir direitos fundamentais e atuar com eficiência na administração pública. Não é um favor. É um compromisso constitucional.
Por isso, indignação não é sinônimo de radicalismo.
É cidadania.
É a recusa em aceitar que o pouco funcione como suficiente.
É olhar para países onde saúde, educação, segurança e infraestrutura entregam resultados compatíveis com o que a população financia e perguntar, com honestidade: por que aqui parece tão difícil?
Não quero privilégios.
Não quero milagres.
Quero coerência.
Quero que a carne tenha um preço compatível com o salário. Que o trabalhador consiga viver sem escolher entre abastecer a geladeira e pagar uma conta. Que empreender não seja uma corrida de obstáculos. Que envelhecer não signifique medo. Que criar filhos seja um projeto de esperança, e não de preocupação permanente.
Não me peçam para normalizar o absurdo.
Porque não é normal.
É legítimo cobrar transparência. É legítimo exigir eficiência. É legítimo fiscalizar quem administra recursos públicos. Democracia não termina no voto. Ela continua na cobrança diária, na participação e na vigilância da sociedade.
O Brasil é maior do que qualquer governo.
Maior do que qualquer partido.
Maior do que qualquer ideologia.
É feito de pessoas que acordam cedo, trabalham, estudam, empreendem, sonham e acreditam que o amanhã pode ser melhor do que o hoje.
É por essas pessoas que vale a pena permanecer inconformado.
Porque quem deixa de se indignar também corre o risco de deixar de acreditar.
E um país não se constrói apenas com arrecadação.
Constrói-se com confiança.
Com responsabilidade.
Com respeito ao cidadão.
E, acima de tudo, com a coragem de lembrar que direitos não existem apenas para serem escritos.
Existem para serem vividos.
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