Ontem, no parquinho, éramos três mães conversando enquanto as crianças brincavam. Idades diferentes, histórias diferentes. Uma delas tinha a idade da minha mãe. Outra havia vivido a maternidade mais tarde e era mãe de gêmeas.
Entre uma olhada e outra para os filhos, falávamos da vida. Escolinhas, rotina, rede de apoio. Até que a conversa chegou às famílias de antigamente, com tantos filhos.
Lembrei da minha própria família. Minha avó teve nove. Minha mãe, quatro. Eu tive dois, ambos planejados, pensando nas condições financeiras que teria para criá-los.
E, ainda assim, há dias em que me pergunto como dar conta.
No meio da conversa, me veio aquela frase: “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança”.
Fiquei pensando nela depois.
Será que minha avó tinha uma aldeia? Imagino casas próximas, parentes, vizinhas. Mas imaginar não é saber. Não conheço todas as dificuldades que ela encontrou. Minha mãe diz que não foi nada fácil.
Os irmãos cuidavam uns dos outros. Havia divisão de tarefas, embora meninos e meninas não dividissem as mesmas obrigações. O cuidado circulava dentro da casa, mas obedecia às regras daquele tempo. Gostaria de ter perguntado mais: quem fazia o quê? Quem podia descansar? O que minha avó desejava para si?
Minha mãe criou quatro filhos enquanto meu pai trabalhava. Hoje, quando penso nisso, tento enxergar para além da frase “ela deu conta”. Quanta coisa cabe ali que eu, como filha, talvez não tenha percebido?
Agora sou mãe e começo a entender o tamanho do que passa despercebido.
No meu caso, pesa muito a responsabilidade de organizar tudo e, ao mesmo tempo, ser profissional. Trabalhar exige atenção, continuidade, tempo para pensar. A maternidade também. E as duas me encontram na mesma pessoa, muitas vezes na mesma hora.
Enquanto faço uma coisa, lembro de outra. Há um compromisso das crianças para conferir, uma decisão da escola, alguma necessidade que ainda vai surgir. Mesmo quando ninguém está me pedindo nada, uma parte de mim continua de prontidão.
Planejei dois filhos. Fiz contas. Pensei nas despesas, na escola, na saúde, no que poderia oferecer. Mas não sabia calcular quanto espaço a organização de uma família ocuparia dentro da minha cabeça.
Escola e plano de saúde entram no orçamento. A preocupação acompanha a gente depois que a conta está paga.
Também me pergunto quanto da segurança que procuramos oferecer aos filhos tentamos resolver individualmente. Pesquisamos, comparamos, contratamos, reorganizamos a renda. Procuramos fazer boas escolhas, sabendo que nenhuma delas elimina a incerteza de criar alguém.
Não sei se minha avó se sentia assim. Não quero emprestar a ela o meu cansaço, nem usar seus nove filhos para diminuir o meu. Quero poder reconhecer que foi difícil para ela e que também pode ser difícil para mim. Sem que uma experiência precise vencer a outra.
Talvez seja isso que essas conversas entre mães permitem: contar o que pesa sem precisar provar que pesa mais.
Ontem, no parquinho, ninguém resolveu a rotina de ninguém. Continuamos atentas às crianças e aos assuntos que começávamos e interrompíamos. Mas havia espaço para falar, ouvir e reconhecer alguma coisa de nós na história da outra.
Voltei pensando na aldeia. Em quem pode fazer parte dela, em como dividir responsabilidades, em quanto apoio precisa existir para além das mulheres que já estão cuidando.
E pensei que eu também gostaria de chegar a algum lugar, de vez em quando, sem precisar organizar tudo antes.
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