Se existe um sentimento que acompanha a maternidade desde o primeiro teste positivo, ele se chama culpa. E não é qualquer culpa, é aquela culpa que cresce, se expande, se multiplica e parece ter vida própria. Como essa ilustração brilhantemente representa, a lista de razões para culpar uma mãe é tão extensa que um único volume não dá conta. Na verdade, suspeito que seja uma coleção infinita, sempre com edições revisadas e ampliadas.
A culpa materna começa antes mesmo da criança nascer. Na gravidez, ela já dá os primeiros sinais. Começa com perguntas inocentes que nos fazem perder o sono:
— Estou me alimentando bem?
— Será que esse café vai fazer mal ao bebê?
— Dormi do lado errado?
E então o bebê nasce, e aí a culpa se instala como uma hóspede permanente.
Se você amamenta, sente culpa porque acha que poderia estar fazendo melhor. Se não amamenta, sente culpa porque disseram que "o leite materno é tudo". Se dá colo demais, está mimando. Se coloca no berço, está sendo fria. Se dorme junto, está criando dependência. Se tenta ensinar a dormir sozinho, está sendo insensível.
Cada decisão parece um teste de múltipla escolha, só que todas as alternativas estão erradas aos olhos de alguém.
E aí vem a introdução alimentar.
— Está oferecendo comida orgânica?
— Mas já deu açúcar?
— Deixou a criança explorar os alimentos ou deu na colher?
E assim seguimos, num looping infinito de dúvidas e comparações.
Mas o ápice da culpa materna vem com o tempo. Porque o bebê cresce e, com ele, as novas edições do grande livro da culpa. Agora é a escola, os horários, a rotina. É o equilíbrio entre carreira e maternidade, entre autocuidado e entrega total. Se trabalha muito, sente culpa por não estar presente o suficiente. Se decide ficar mais tempo com os filhos, sente culpa por não estar investindo em si mesma.
E então, numa manhã qualquer, você olha para essa pilha de culpas e percebe: nunca vai dar para ganhar esse jogo. Porque ser mãe não é sobre perfeição. É sobre fazer o melhor que pode com o que tem. É sobre aprender a ignorar os palpites não solicitados, sobre escolher o que realmente importa e aceitar que errar faz parte do processo.
A verdade é que esse livro da culpa materna só existe porque nós mesmas nos cobramos demais. A sociedade também faz sua parte, claro, mas somos nós que precisamos nos libertar dessa necessidade de atender a todas as expectativas.
Então, que tal começar a reescrever essa história? Ao invés de carregar essa enciclopédia da culpa, podemos criar um livro de conquistas maternas. Um livro que celebre os pequenos e grandes acertos, que reconheça o esforço, que nos lembre de que estamos fazendo um trabalho incrível — mesmo nos dias de cansaço, de fast food improvisado e de histórias para dormir contadas com a voz falhando.
Porque, no fim das contas, a única coisa que nossos filhos realmente precisam é de uma mãe que os ame. E isso, sem dúvida, nós sabemos fazer muito bem.