sábado, 13 de dezembro de 2025

O saldo do final do ano

Todo fim de ano pede silêncio antes da lista.

Antes do check list.

Antes das promessas que a gente faz olhando para frente, mas que só fazem sentido quando olhamos para trás.

O saldo não é só o que foi riscado como concluído.

É também o que ficou pela metade.

O que doeu.

O que mudou a rota.

Sou grata pelo que se foi — porque precisou ir.

E pelo que ficou — porque resistiu.

Pelas conquistas que vieram com festa e pelas que chegaram quietinhas, quase tímidas, mas profundas.

Pelos dias alegres, pelos dias cansados, pelos dias em que só sobrevivi. Todos contam.

Houve mudança de hábitos.

De prato.

De ritmo.

De escolhas.

Qualidade de vida não chegou como milagre, chegou como decisão repetida. Dia após dia.

Agora, sentada no salão, unhas sendo feitas, cabelo sendo renovado, percebo: isso também é ritual.

Cuidar do que sustenta tudo.

Pausa merecida.

Espelho que devolve não só a imagem, mas a história inteira do ano.


Não foi perfeito.

Foi vivido.

E isso já é muito.

Que o próximo ano venha com menos cobrança e mais presença.

Menos promessa vazia e mais gratidão real.

Porque o verdadeiro saldo… é estar aqui. Inteira.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

A era pós-pré-treino: Eu, renovada e monitorada

Aconteceu.

A revolução.

O renascimento.

A Era Pós-Pré-Treino™ deu tão certo que agora eu evoluí de fase e desbloqueei o item mais poderoso do jogo: meu relógio inteligente Amazfit — um pequeno oráculo preso ao meu pulso, pronto para narrar minha vida como se fosse um documentário da BBC.


De repente, eu, mãe de dois, estudante, trabalhadora, dona de casa, empreendedora e sobrevivente emocional, virei também uma pessoa que faz 10 mil passos por dia… ou finge que faz (porque o relógio vibra celebrando até quando eu balanço o braço para chamar as crianças).


O Amazfit tem uma função de estresse.

A função detecta o estresse.

A função mede o estresse.

E o estresse sou eu.


O relógio olha para mim como quem diz:

“Querida… respira. Eu tô vendo tudo daqui.”


E eu respondo mentalmente:

“Eu sei, Amazfit, eu sei. Mas você já tentou convencer uma criança de 3 anos de que meia não é opcional?”


Aí tem a função de ciclo menstrual.

O relógio sabe antes de mim.

Ele literalmente me avisa que estou sensível… e, veja só, eu realmente estou chorando porque acabou o café.

Ele olha meus hormônios e fala:

“Se prepara, amor. Hoje não é dia de discutir relação, escolher roupa ou fazer contas.”


E os passos?

Ele marca tudo.

Marca quando eu corro atrás do filho de 5 anos para ele não sair sem escovar os dentes.

Marca quando eu subo escada com mochila, lancheiras, cadernos, garrafinhas e dignidade na mão.

Marca até quando eu tenho que ir na cozinha buscar algo que eu mesma esqueci.


A função do sono…

Ah, essa é uma obra-prima da comédia.

Ela me diz:

“Seu sono foi leve.”

E eu fico pensando:

“Leve? Leve é pouco, meu anjo. Leve é peso de algodão. O que eu tive foi um cochilo interrompido 14 vezes por ‘mamãe, cadê meu dinossauro azul?’, ‘mamãe, posso beber água?’, ‘mamãe, você sabe que o Japão existe?’”


Mas o ponto alto dessa história toda é outro.

Eu M-U-D-E-I.


Zero álcool.

Alimentação decente.

Atividade física regular.

Suplementação.

Sono (quando dá).

E agora o relógio me ajudando a não fugir de mim mesma.


Eu comecei a ter tempo.

E fiz escolhas com esse tempo, escolhas que sempre deixei para depois porque a gente, mulher, mãe, estudante, trabalhadora, vira uma máquina de cuidar — e esquece da própria engrenagem.


Hoje, sou quase uma versão Marvel de mim mesma.

Uma super-heroína com tênis confortável, pré-treino na veia e um relógio que me julga carinhosamente.


E a sensação?

É de vitória.

De respiro.

De existir.

De não estar apenas vivendo por inércia.


Porque quando eu paro, no fim do dia, e o relógio vibra dizendo “meta alcançada”, sinto vontade de responder:


“Pois é, Amazfit…

A vida também.”

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

A pressa que não cabe no relógio

Você anda apressado?

Seu dia parece curto demais?
Anda comendo rápido, falando rápido, vivendo rápido… como se estivesse sempre tentando pegar um ônibus que já arrancou da parada?

Outro dia, me peguei dizendo pela milésima vez: “Nossa, a semana passou voando!”
E logo em seguida pensei:
Mas quem está voando… é a semana, ou sou eu correndo atrás dela?

Há quem diga que é o tempo moderno, que tudo anda acelerado, que a vida pede pressa.
Mas a verdade é que a pressa não está no relógio, está em nós.
É essa mania de achar que, se pararmos um pouco, vamos ficar para trás — como se a vida fosse uma competição em que o troféu fosse apenas sobreviver ao mês.

Corremos para trabalhar.
Corremos para resolver.
Corremos para responder mensagem, para postar, para entregar, para provar, para não decepcionar.

E no meio dessa maratona sem medalha, esquecemos de viver.

Não é que o tempo esteja mais curto.
É que estamos enchendo cada minuto de tarefas, expectativas, metas, cobranças.
Estamos ocupando cada espacinho da agenda — e deixando vazios os espaços da alma.

A pressa se tornou hábito.
E o hábito virou identidade.
Mas quem foi que disse que precisamos ser rápidos para sermos completos?

Se a vida fosse realmente curta como dizem, por que insistimos em atravessá-la correndo?

Talvez a pergunta certa seja outra: o que estamos tentando evitar quando aceleramos?
O silêncio?
A solidão?
A reflexão que aparece quando paramos?
Ou o medo profundo de perceber que estamos cansados demais?

A pressa nunca foi sinal de produtividade.
Às vezes é só um jeito educado de esconder a exaustão.

E sabe o mais curioso?
Quando desaceleramos — mesmo que só por um minuto — percebemos que o tempo não voa, ele caminha.
Devagar.
Constante.
No passo que sempre teve.

Quem estava correndo éramos nós.

Então, da próxima vez que sentir tudo rápido demais, pare um pouco.
Um gole de café sem olhar para o celular já é um começo.
Uma respiração mais longa também serve.
Porque desacelerar não é perder tempo —
é recuperar o pedaço de vida que deixamos cair pelo caminho.

A vida não é curta. 
Curto é o tempo que a gente realmente vive dentro dela.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O espelho e a esponja

 

Enquanto minha pequena de três anos comemora cada palavrinha falada com perfeição — como quem descobre um superpoder —, o meu pequeno de cinco vibra com o terceiro dentinho que caiu.

E lá estamos nós, mais uma vez, comemorando juntos, como se o mundo se renovasse a cada conquista.


É que na maternidade, cada dia é uma estreia.

Um dente que cai, uma frase que sai certa, um “mamãe, eu consegui!”.

A casa vira palco, plateia e cameraman — tudo ao mesmo tempo.

E eu? Eu sou o público emocionado e o bastidor bagunçado.


Naeli, minha doce imitadora, segue o irmão em tudo.

Se ele escova os dentes, ela escova.

Se ele corre, ela voa.

Se ele fala “por que chove?”, ela pergunta “por que sol?”.

É fascinante e, confesso, um pouco assustador perceber o quanto eles absorvem — palavra, gesto, humor, tudo.

Eles são esponjas.

Mas nós, pais, somos o espelho.


E aí mora o desafio.

Porque entre a pressa do dia, o trabalho, os estudos e o cansaço, a gente precisa lembrar que alguém nos observa com olhos que ainda acreditam que somos super-heróis.

Eles não enxergam nossas falhas — só o amor que colocamos em cada gesto.


Ser mãe é viver em constante tentativa de acertar.

É ser o manual e o improviso, o colo e a bagunça, o exemplo e o aprendizado.

E é, sobretudo, entender que criar filhos é construir o futuro com palavras simples e abraços demorados.


Talvez eu não saiba responder todas as perguntas do meu filho.

Talvez eu tropece nas minhas próprias respostas.

Mas se ele ainda acredita que eu sei de tudo, é porque, de algum modo, estou acertando.


A maternidade é isso: o caos mais bonito que já me aconteceu.



quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A mulher que quase programou o mundo

 

Hoje, mais uma prova.

Python. E o conteúdo? Listas, tuplas, dicionários, conjuntos e funções.

Ou, como eu gosto de chamar: as cinco fases do desespero digital.


Lá estava eu, encarando a tela como quem encara um quebra-cabeça de mil peças sem figura de referência.

O professor dizia: “pensem logicamente”.

Lógica. Essa palavra devia vir com bula — tipo remédio controlado.


Enquanto tentava entender o que raios uma tupla faz da vida, pensei:

eu sou mãe de dois — três e cinco anos! Já resolvo brigas, almoço, banho e trauma infantil em menos de quinze minutos. Como é que eu não consigo resolver um dicionário?


E lá estava o Python, debochando de mim.

O código não rodava, o for loop girava em falso, e as listas… ah, as listas!

Listas eu tenho várias: de compras, de tarefas, de coisas que esqueci de fazer.

Mas essa, a do Python, simplesmente não colaborava.


A verdade é que aprender programação depois da maternidade é tipo tentar meditar no meio de um parque de diversões.

Você quer foco, mas alguém grita “mamãe, limpa aqui!” e o raciocínio lógico se muda pra outro planeta.


No meio do caos, eu penso: sou boa em tantas coisas.

Eu escrevo crônicas, toco violão, faço um bolo de cenoura digno de aplausos.

Sou mãe, empreendedora, estudante e, olha, até formada já sou!

Mas Python insiste em me provar que humildade é uma virtude.


E ainda tem aquele momento do drama final:

olho pro professor, depois de 1h40 de prova, e confesso —

“Professor, dessa vez nada completou… os códigos não lêem.”

Ele sorri, eu engulo o choro e salvo o arquivo:

tentativa_final_vai_agora_sim_por_favor.txt.


Saio da sala com a sensação de derrota e esperança ao mesmo tempo.

Porque amanhã é outro dia.

E se a vida é um grande try... except, eu sigo no try, com café, coragem e duas crianças que me esperam em casa gritando:

“Mamãe, cadê o tablet?”


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

“Por que você não precisa ser só isso”


Hoje, recebi um abraço do qual eu estava precisando.

Talvez até o conforto e o impulso que faltavam para continuar.

Um abraço carregado de verdade, compaixão e empatia — desses que a gente sente que não vêm das palavras, mas do olhar.


Aconteceu depois de uma prova de Cálculo. Eu era uma das três últimas da sala.

O frio do ar-condicionado competia com o frio que eu sentia por dentro.

Olhei para o professor e, sem pensar muito, deixei escapar:

— Por que eu não posso só ser mãe mesmo?


Ele respondeu sem hesitar, com uma firmeza tranquila:

— Porque você não precisa ser só isso.

E completou:

— Esse questionamento é a sociedade que lhe impõe.


Fiquei em silêncio.

Aquela frase ecoou em mim como quem acende uma luz em um cômodo esquecido.

Porque, sim, eu sou mãe.

Mas também sou mulher, estudante, profissional, sonhadora — e às vezes, tudo isso ao mesmo tempo.

E é nessa sobreposição de papéis que mora o peso e a beleza de existir sendo mulher.


Eu me cobro demais.

Cobro-me em casa, com os filhos, nas tarefas, nos estudos, nas obrigações.

Cobro-me porque me ensinaram que para ser boa eu precisava dar conta — e dar conta sozinha.

Mas não, a gente não precisa.


Ser mulher é viver entre a exaustão e a potência.

É equilibrar o amor e a culpa, o sonho e o medo, o querer e o permitir-se.

E no meio disso tudo, aprender que não há nada de errado em parar, respirar, pedir colo — ou se orgulhar de ser quem se tornou.


O abraço que recebi não foi apenas um gesto de empatia.

Foi um lembrete de que o “só” é uma armadilha.

A mulher não precisa ser só mãe, só profissional, só esposa.

Ela pode ser o que quiser — e tudo o que quiser.


Porque o “só” nunca coube em nós.