sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Um bilhete

Quando finalmente o dia começou a desacelerar e as luzes da casa ficaram mais amenas, recebi um presente. Nael, com sua carinha arteira e sorriso tímido, me entregou um pedaço de papel amassado.

“É pra você, mamãe”, disse, antes de sair correndo para se juntar à irmã.

No papel, as letras grandes e tortas formavam duas palavras: “Te amo.” E lá estava a assinatura: Nael. Ao lado, um coração desenhado com o cuidado que só uma criança consegue ter.

Senti o cansaço do dia se dissolver ali mesmo. Um bilhete simples, mas que carregava todo o amor que transbordou daquela casa ao longo do dia. Eles não precisavam dizer mais nada. Nem eu.

As férias estão só começando, e talvez sejam cansativas. Mas, se cada dia terminar com amor tão puro, vale a pena cada segundo.

sábado, 7 de dezembro de 2024

Um sábado que não foi qualquer

 

Era um sábado morno, desses em que o tempo parece deslizar preguiçoso, mas traz pequenas surpresas. A mesa estava posta, simples, mas cheia de vida, como a nossa rotina com duas crianças pequenas exige. Nael e Naeli, meus pequenos de 4 e 2 anos, se sentaram para almoçar. Até aí, nada parecia diferente. Mas então veio o inusitado: eles comeram. Comeram com gosto. Sem distrações. Sem a bagunça habitual que nos faz suspirar e sorrir ao mesmo tempo.

Naquele dia, não houve tela ligada, nem carrinhos e bonecas escapando para debaixo da mesa. Havia apenas nós: a família, unida em volta de pratos coloridos e conversas amenas. Meu marido ajudava Naeli, equilibrando colheradas enquanto ela tentava segurar o garfo como uma grande menina. Eu ajudava Nael, ainda impressionada com sua paciência crescente. Sim, estavam crescendo. Estávamos todos.

Foi quando Nael, com seu jeito curioso e olhar iluminado, começou a falar do Natal. “Mamãe, como o Papai Noel vai passar pra deixar o presente na árvore? Ela tá tão apertada agora…”

Olhei para ele, surpresa com a lógica e o olhar atento às mudanças do mundo à sua volta. A árvore, é verdade, tinha sido deslocada para um canto mais discreto da sala, menos glamourosa do que em anos anteriores. Respondi com um sorriso:

“Ah, filho, o Papai Noel sempre encontra um jeito. Ele é esperto e sabe se adaptar, assim como a gente.”

Naeli, mesmo sem entender toda a conversa, riu. Talvez risse do irmão, talvez risse de nós, os adultos, com nossas histórias e improvisos. O pai riu junto, e ali estávamos: todos em sintonia, sem pressa, sem pressões.

Era um almoço, como tantos outros. Mas naquele momento, o tempo pareceu nos conceder uma pausa. Uma chance de enxergar o que, no meio do caos cotidiano, às vezes passa despercebido: a conexão simples e profunda que nos une.

Os pratos se esvaziaram. As crianças voltaram a correr pela casa, como deveriam, espalhando risos e energia. E eu fiquei ali por uns instantes, ainda sentada à mesa, olhando a árvore no canto da sala e pensando que, sim, Papai Noel acharia um jeito. Sempre achamos.

sábado, 28 de setembro de 2024

A Beleza das Pequenas Coisas

Eu gostaria de começar com uma pergunta: você já parou para perceber a beleza que existe nas pequenas coisas do seu dia a dia? Falo sobre aquelas cenas que passam despercebidas enquanto estamos distraídos com a correria da vida. É sobre elas que eu quero falar hoje.



Pense em uma manhã comum, você acorda e o primeiro raio de sol atravessa a cortina, aquele calorzinho tocando o seu rosto. A sensação de uma xícara de café quente entre as mãos. O aroma que invade o ambiente. Ou o som do vento batendo nas folhas de uma árvore lá fora. Esses são pequenos momentos que podem facilmente passar batido, mas se pararmos para perceber, encontramos ali uma espécie de poesia silenciosa, uma felicidade que não precisa ser grandiosa para ser real.


Na vida, muitas vezes nos pegamos buscando o extraordinário. Queremos grandes acontecimentos, sucessos estrondosos, momentos de êxtase. Mas e se o segredo de viver bem estivesse justamente no contrário? No ordinário, no simples, naquilo que muitas vezes deixamos para trás na pressa de ser ou ter mais?


Amélie Poulain, do filme que inspira nosso encontro, tinha essa capacidade de transformar o comum em extraordinário. Ela vivia com um olhar atento ao mundo ao seu redor, encontrando beleza onde muitos veriam apenas banalidade. Ela mostrava que a vida, mesmo em sua aparente simplicidade, é cheia de possibilidades de encantamento.


Mas como podemos aplicar isso em nossas vidas? Como podemos, em meio à rotina, desacelerar e perceber a beleza das coisas simples? A resposta é: praticando a presença. Vivemos tempos de distrações constantes, de cobranças incessantes, onde somos levados a crer que precisamos estar sempre correndo, sempre fazendo algo. Mas, às vezes, o que realmente precisamos é parar. Respirar. Sentir.

Na próxima vez que você estiver caminhando, não olhe apenas para a frente. Observe o caminho. Veja as cores das flores, sinta o cheiro do ar, ouça o som da sua própria respiração. Quando estiver com alguém que ama, realmente esteja presente. Desligue o celular, olhe nos olhos, escute com atenção.

E se, por acaso, bater aquela sensação de que a vida poderia ser mais, que você deveria estar em outro lugar, fazendo algo diferente, lembre-se: a vida está acontecendo agora. Ela não está lá na frente, num futuro distante. Ela está no presente, no instante em que você ouve essas palavras, no ritmo do seu coração.

Que tal começarmos, então, a redescobrir o prazer de viver o agora? Porque, no fim das contas, a felicidade não é um destino. É uma coleção de pequenos instantes, momentos que podemos escolher saborear ou deixar passar.

Lembre-se: a vida é mais bonita quando olhamos para ela com os olhos da alma.

domingo, 22 de setembro de 2024

"Reorganizando as Prateleiras da Vida

Interessante, não é? Descobrir que o mundo é uma espécie de supermercado humano, onde as pessoas se organizam em prateleiras. Temos aquelas que exigem nosso melhor, que esperam atenção, e que não aceitam qualquer resposta que não seja "sim" ou "não". Elas ocupam a prateleira de cima, onde guardamos as taças de cristal que tiramos para ocasiões especiais. Cuidamos com carinho, porque sabemos que um deslize pode causar um estrago enorme.

Logo abaixo, temos a seção do “tanto faz”. É como a prateleira do meio da geladeira, onde ficam aqueles itens que a gente consome sem muita cerimônia. Elas não fazem questão de um espaço exclusivo e se adaptam a qualquer situação. Um “oi” ou um “tchau” é suficiente, e elas continuam ali, sem reclamar.

Por fim, há as pessoas do “não me importo”. Aqueles que ficam na prateleira de baixo, junto com a farinha e os potes de sorvete vazios que a gente guarda sabe-se lá por quê. Elas não se ofendem com o pó que se acumula sobre elas e não reclamam quando esquecemos que ainda estão lá. São as que nos fazem lembrar que, às vezes, o espaço está mais vazio do que deveria.

E no meio de tudo isso, você, curador da sua própria vida, vai descobrindo onde colocar cada um, quem fica em destaque, quem fica no canto, e quem talvez já deveria ter saído de circulação. É um aprendizado constante, mas essencial. Afinal, arrumar as prateleiras não é sobre organizar o mundo, mas sim, sobre organizar a si mesmo.

sábado, 21 de setembro de 2024

Os pequenos furações do 501



Nael e Naeli, com seus 4 e 2 anos de pura energia, são como pequenos furacões em casa. Um dia, eles estão correndo pelo corredor, transformando almofadas em montanhas e o sofá em um castelo. No outro, estão aos prantos porque a bolacha quebrou no meio ou porque um deles decidiu que o brinquedo do outro é o melhor do mundo.

Mas, sabe de uma coisa? Assim como os desenhos na parede e os brinquedos espalhados pelo chão, tudo passa. Eles crescem, aprendem a dividir, a consertar bolachas partidas e até a fazer novas montanhas de almofadas. E, em meio ao caos e à bagunça, a gente percebe que o tempo é um vento que leva tudo, inclusive os momentos que achamos que nunca vão acabar.


Aproveite cada segundo, porque até o furacão vira brisa.

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

Crônica de uma Mãe em Isolamento Social

 


É 2024, mas parece que ainda vivemos em 2020. Eu olho ao redor e sinto o peso das paredes da minha casa, tão familiares e, ao mesmo tempo, tão opressoras. Não há espaço suficiente para todas as demandas, os gritos e as responsabilidades. Sou mãe. Sou trabalhadora. Sou cuidadora. Sou tudo ao mesmo tempo. Mas quem sou eu, de fato?

Quatro anos atrás, assisti pela primeira vez o mundo se encolher diante de um vírus. As notícias falavam de isolamento social, de manter distância, de um novo normal. Na época, me perguntei o que era isso — isolamento. Será que sabiam do que estavam falando? Hoje, já não há mais dúvidas.


Agora, estou aqui, em casa, tentando repousar. É a minha primeira vez com COVID. Não estou de home office. Fiquei doente, faltei ao trabalho. Sem atestado. Não existe mais o luxo do distanciamento adequado. O isolamento tornou-se uma espécie de piada amarga, uma ilusão. Como me isolar quando tudo depende de mim? Como repousar, quando meus filhos precisam de atenção, quando o jantar precisa ser feito e a casa ainda não se organiza sozinha?


Meus filhos estão aqui, ao meu redor. Sempre. Eu rezando que o vírus não os contamine também. As risadas e os gritos se misturam, transformando minha casa em uma bolha de sons, onde não há respiro. Não há mais “eu” entre eles. Se um adoece, todos adoecem. E eu, a mãe de COVID, fico. O mundo lá fora continua girando, mas aqui dentro... tudo parou.

Mas essa mãe precisa estar disponível. Disponível para quem? No fundo, não importa. A resposta é sempre: para todos.

E quando a COVID volta a bater à porta, o que resta? Não há escola, não há rede de apoio. Só há eu. Eu e o protocolo. O protocolo que me obriga a fazer um teste em laboratório, porque o auto teste não é válido para justificar a minha ausência no trabalho. Mais uma ironia cruel. Preciso faltar ao trabalho, mas, para isso, devo sair de casa para validar uma doença que todos sabem que já está aqui, comigo.

Quem cuida de nós? Quem cuida da mãe de COVID? Dos medos que nascem no isolamento? Dos sonhos que não têm mais espaço para florescer entre um grito e um tanto de outras coisas que demandam nossa atenção.

O tempo passa. E se aprendi algo nesses anos, é que o isolamento vai além das paredes físicas. Ele está na ausência de apoio, no vazio deixado pelas expectativas impossíveis. Está na solidão de ser tudo para todos e, ao final do dia, sentir que ainda não foi o suficiente.

O protocolo não faz sentido. Mas faço eu? Sigo, porque é o que sempre faço.


Força. Força a todas as mães.